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17 de abril de 2015

Contos Mínimos # 281 a 290

vida-melhor281.

Ouvi dizer que existe uma vida melhor, mas é mais cara.

282.

Os médicos não têm dúvida de que se trata de uma nova doença. Na verdade, uma epidemia. É como um vírus: está em toda parte, contagia adultos e crianças e não se vê. Por causa dele, e ainda que a primavera não tenha chegado, as pessoas saem às ruas para dançar, os casais se amam em todos os lugares, as crianças brincam ao ar livre e soltam as mais sonoras gargalhadas, os operários trabalham assoviando antigas canções e quase não há automóveis nas avenidas. Os governantes olham à distância o que ocorre na cidade e tentam impor o toque de recolher e o uso de máscaras, mas é inútil. A epidemia já tomou conta do país inteiro, e a confiança que todos agora sentem afastou as sombras que mantinham a população com medo e acuada dentro de casa. De repente, tudo é possível.

283.

Depois do espetáculo, o palhaço principiante recolhe no picadeiro os tomates que a plateia lhe atirou. Percebeu que hoje havia menos que a semana passada. Nesse ritmo, ele calcula, dentro de nove anos e seis meses receberá seu primeiro aplauso.

284.

Estou escrevendo minha autobiografia. Ou melhor, minha auto-hagiografia. Eu sei que não é comum que os santos escrevam sua própria história, mas eu acho que minha vida é muito interessante e seria uma pena deixar que um escritor qualquer se encarregasse disso. Só que tem um problema: vou ficar devendo o último capítulo, que é quando me assam na fogueira.

285.

Ela comunicou a todos: “Queridos amantes meus, despeço-me de vocês com muita gratidão. Finalmente encontrei o verdadeiro amor de minha vida. Mas guardem o meu telefone, porque a vida reserva surpresas, não é?”.

286.

No jornal de ontem li um anúncio que me deixou estarrecido. Alguém queria trocar um gato cantor por uma galinha poliglota. Eu, na minha santa ignorância, não sabia que existiam gatos cantores neste mundo, e achei melhor pensar que o anúncio não era mais que uma piada. Para evitar qualquer problema mais sério, não deixei que Frida, minha galinha poliglota, lesse o jornal.

287.

Quando recebi um dos dedos de minha esposa numa caixa pelo correio, soube que tudo tinha saído como combinado.

288.

Esfrego a lâmpada e surge o gênio. Faço um pedido e a bela mulher aparece. Eu me esfrego nela e o gênio surge de novo. A bela mulher faz um pedido e eu desapareço.

289.

Hoje é uma data especial: faz seis anos, três meses, dois dias e uma hora que a esqueci completamente.

290.

Quando saíram do motel, Celso e Janete deram de cara com seus respectivos cônjuges e a confusão estava armada. Os respectivos cônjuges ainda tentaram dar a desculpa de que estavam ali para buscá-los. Quanto descaramento!

 




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