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4 de maio de 2015

Contos Mínimos # 291 a 300

amigos291.

Celeste enveredou pela rua que dava na Porta do Triunfo. Hoje anda com o nariz empinado.

Reginaldo, com passo firme, cruzou a Praça do Desengano – e se arrependeu amargamente.

Maria foi na direção da igreja, primeira à direita. Tornou-se repositório de preconceitos e maledicências.

Henrique, ávido por conhecer o mundo, não foi capaz de abrir nenhuma porta que o levasse para lá e acabou não saindo do lugar. Elisa, essa sim, descobriu um atalho e partiu mundo afora; ninguém nunca mais a viu.

A vida passou e, no momento preciso, apresentou a fatura: todos acharam o preço alto demais.

292.

– Eu amo você.

– Você diz isso pra todas.

– Sim, pra todas.

– E ainda confessa que diz isso pra todas?

– Sim, eu digo pra todas que amo você.

293.

Quando acabou a reunião entre os representantes dos dois países mais poderosos do mundo, o tradutor juramentado guardou em seu bolso a palavra que não traduzira e foi-se embora, certo de que acabara de evitar a terceira guerra mundial.

294.

A mulher de uns quarenta anos, com o olhar perturbado e a tristeza dos primeiros cabelos brancos, aproxima-se do berçário e olha ternamente através do vidro para os recém-nascidos. Seus olhos dançarinos buscam um bebê. Sorri quando o localiza. Aproveita-se do descuido das enfermeiras e entra lá onde os pequenos dormem. Os seguranças, chamados às pressas, chegam e a retiram do local. Pela enésima vez Yerma é expulsa da maternidade.

295.

Quando o noivo lhe deu aquele jogo de chá em miniatura, ela interpretou o gesto como uma antecipação da maravilhosa vida de casados que teriam. Ficou um pouco inquieta quando ganhou aquela bonequinha de porcelana que dizia “sim”. Abriu os olhos definitivamente quando, no último aniversário, ganhou do futuro marido a vassoura e a tábua de passar roupa de brinquedo. Resolveu acabar com o noivado antes que fosse tarde demais.

296.

Ando deprimido. Não tenho uma só mensagem na minha caixa de entrada do Outlook, ninguém escreve em meu mural do Facebook e houve uma debandada de 18 seguidores em minha conta do Twitter. Eu juro que já ficaria um pouquinho mais contente só com uma rápida mensagem no Whatsapp, qualquer uma!

297.

Aconteceu uma vez, quando ele voltava para casa à noite, depois do trabalho. Tinha se esquecido de levar a chave e por isso tocou a campainha. Sua mulher abriu a porta: “O que você deseja?”. Ele pensou que ela estivesse brincando e deu o primeiro passo para entrar, mas ela o impediu, fechando a porta e deixando somente uma fresta, por onde o observava de cima a baixo. Ela perguntou de novo, e ele ficou lá, com cara de quem não sabe quanto é um mais um. Com um gesto brusco, ela bateu a porta e não a abriu mais, mesmo que ele chamasse seu nome e até chorasse. Tudo inútil. Os vizinhos apareceram para ver o que havia e foi quando ele, olhando para aqueles rostos desconhecidos, percebeu que tinha se enganado de casa. E, claro, de mulher também.

298.

Fui a um hipnotizador para que me ajudasse a me esquecer de você. O problema é que agora não consigo me lembrar de mim.

299.

Ele a esperou por uma hora, um dia, uma semana, um mês, um ano, um século. Quando ela finalmente chegou, ele se limitou a dizer: “Sinto muito, mas não posso amar alguém que seja tão impontual.”. E foi-se embora.

300.

Há dias sinto uma terrível dor nas costas. Acho que, quando me deito, não durmo bem, não descanso. A culpa deve ser do colchão. Percebo que ele está disforme, cheio de ondas, desestruturado. Outro dia vi um anúncio no jornal – “Colchões: consertos e reformas com garantia”. Fui até lá. Quando me dirigi à sala do gerente, ouvi, pela porta entreaberta, a conversa entre ele e um cliente que, por coincidência, era meu colchão, que dizia com sua voz de espuma: “Eu não descanso. Tenho um inquilino disforme, cheio de ondas, desestruturado”.

 




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