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29 de junho de 2015

Contos Mínimos # 321 a 330

letras321.
Recordo-me perfeitamente do dia em que um leitor abriu nosso livro e nos encontrou festejando num canto da página, em total alegria e descontração. Ele esfregou os olhos durante uns segundos, sem acreditar no que via. Quando olhou de novo, já estávamos todas em nossa posição habitual, cada qual em sua frase, cada qual em sua linha. Por sorte pudemos nos arrumar rapidamente e ele deve ter pensado que era um sonho ou algo parecido. Fechou o livro, acreditando ter tido uma alucinação. É bom que pense assim. Nós, as letras, não queremos perder nossa liberdade de ir e vir.

322.
Houve um dia em que o mundo ficou livre das guerras e da miséria, do racismo e da violência, da exploração e dos assassinatos. Era um dia em que não havia humanos circulando por aí.

323.
O homem acreditou quando ela confirmou que ele tinha sido o primeiro. Enquanto se vestia, ela pensava: “Por que todos perguntam a mesma coisa?”.

324.
Se Deus está em toda parte, é de se pensar que em alguns lugares lhe negaram o visto de entrada.

325.
Arrancou a última página de todos os livros. Não abria mão da liberdade de imaginar o final de cada um deles.

326.
Eu me surpreendi quando o garçom me trouxe a conta do almoço. Ele me explicou que acrescentou também a refeição de minha mãe, a pedido dela. Então me lembrei da bela senhora, de cabelos brancos e muito elegante, que estava sentada ao meu lado no balcão do restaurante lotado. Eu não questionei o valor, paguei e fui embora. Na rua, caminhando de volta ao trabalho, pensei que não tinha ficado cara a ilusão de ter almoçado outra vez com minha mãe, já que a perdi há tanto tempo. Isso não tem preço.

327.
Ela não era uma psicopata, tampouco uma assassina com uma faca ou um revólver na mão. Meu sangue não escorreu, nenhuma ferida foi aberta no meu pescoço. Não agonizei na sarjeta nem fui apunhalado num beco escuro. Ela me matou com um simples “te amo”.

328.
Ele necessitava de um transplante com urgência, e os médicos puseram nele o coração da cidade. Agora ele anda por aí, arrotando executivos ciclistas.

329.
Carregou o carro com todas as malas, as bicicletas e os outros brinquedos, colocou o bebê na cadeirinha do banco traseiro, os dois maiorzinhos ao lado, trocou um longo e aflito olhar com sua esposa, suspirou e arrancou. Outro ano se acabou e agora, bem, agora começavam as férias…

330.
“Como é possível que, em pleno século I, ainda exista a pena de morte?” – pensou o turista, enquanto fazia uma selfie aos pés do homem crucificado.

 




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29 de junho de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos Minímos contos mínimos

              
            
    • Hehehe, criei uma dependência em vc. Sabe que um conto mínimo meu vai integrar uma antologia de microcontos de humor de Piracicaba? Veja só… Beijo.

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