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17 de julho de 2015

Contos Mínimos # 331 a 340

escuridao331.
Aqui, nesta escuridão de breu, atrevo-me a escrever as palavras que me envergonham, pois sei que ninguém poderá lê-las.

332.
A árvore caiu no meio do bosque e, como imaginou que ninguém tivesse ouvido, atualizou seu status no Facebook para que todos soubessem.

333.
Vinte anos juntos, e já era tempo demasiado. Ainda mais considerando os últimos cinco, em que a falta de respeito e as agressões verbais deram o tom. Ameaças de abandono eram o pão de cada dia daquele matrimônio. Menos mal que nunca tivessem chegado à violência física. Mas agora, depois de vinte anos, já deu, para os dois. Quem vai cair fora primeiro? Nenhum deles queria carregar a culpa de ter tomado a iniciativa de abandonar o lar. Ainda mais com dois filhos pequenos. Por isso ninguém estranhou quando eles anunciaram, com grande alegria, que o terceiro rebento estava a caminho.

334.
“Se alguém for contra esse casamento, que fale agora ou se cale para sempre”. Ninguém disse nada. O jantar após a cerimônia transcorreu no mais absoluto silêncio.

335.
Desde os cinco anos Marina só vestia calças compridas. Em vão todas as tentativas de seu pai de vesti-la como uma princesa. Se ele lhe trouxesse um vestido novo, Marina corria para o quintal e se escondia. Caráter forte desde tão tenra idade, não havia maneira de convencê-la a se vestir como as demais garotas. O pai não a compreendia, frustrado sempre por ver sua filha parecendo um rapazinho. A paciência paterna chegou ao limite quando viu Marina aparecer na sala ontem à noite: numa das mãos, uma tesoura, na outra, o tufo de cabelos ruivos; na cabeça, o resto assimétrico de seus cabelos. Enfurecido, o pai a castigou com palmadas severas, Marina sem derramar uma só lágrima. Ele sim, depois de tudo, sentou-se no sofá e chorou. A pequena se aproximou dele, “não chore, papai”. Ele apoiou sua pequena no colo e lhe perguntou por que queria se vestir como menino. “Porque quando crescer quero ser um papai”, disse ela. Ele pediu mais explicações e ouviu: “Quero ser um papai porque as mamães morrem”.

336.
Gosto de contar nos dedos os casamentos aparentemente felizes que conheço: nove. Peço desculpas se me esqueci de algum.

337.
A religião serve para nos ajudar e nos consolar de vários problemas que não teríamos se não houvesse religião.

338.
O garoto caminhava com o pai, saboreando um sorvete. Quando terminou, jogou o papel da embalagem no chão. O pai viu, mas nada disse ao filho. As pessoas que passavam perto também viram e tampouco disseram algo. Todos, porém, se queixavam da sujeira que havia nas calçadas da cidade.

339.
Quando voltou, Alice me disse para não me preocupar: muitas pessoas que consideramos importantes aqui, lá no outro lado do espelho são um zero à direita.

340.
– Esse vestido é novo?
– Sim – respondeu a mulher, nariz empinado -, o que achou?
– Ficou ótimo em você, muito elegante.
– Muito obrigada, que bom que gostou – disse ela sorrindo, sem alterar as feições ao se lembrar de que, para conseguir o vestido, que era o último da promoção, teve que esbofetear umas tantas mulheres e rolar escada abaixo com uma delas.

 




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