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31 de agosto de 2015

Contos Mínimos # 361 a 370

relogio361.
Quando você olhar para os ponteiros do relógio e imaginar que eles estejam dizendo “mais um, mais um, mais um…”, não se iluda. Eles estão gritando “menos um, menos um, menos um…”.

362.
Estava desesperado e não viu outro jeito de resolver o assunto. Colocou uma peruca loira e óculos de sol que lhe tapavam metade do rosto. Entrou no banco com ímpeto. Menos de um minuto depois as sirenes da polícia já gritavam à porta. Foram horas de negociação com o gerente da agência, mas no fim tudo se acalmou. Um a um os reféns foram soltos. Ele, depois de muito conversar, concordou com a solução e conseguiu o empréstimo a juros de quinze por cento. Saiu de lá com uma mão para cima e uma geladeira, um micro-ondas e um faqueiro de aço inoxidável na outra.

363.
Enquanto ela dorme, eu a observo e espero a oportunidade. Aproximo-me da cama sem fazer ruído. Vejo-a movimentar-se durante o sono. É agora! Pulo sobre ela. Converto-me no homem de seus sonhos.

364.
Eu te matei em legítima defesa e sem testemunhas. Quem vai duvidar de mim? Será a minha palavra contra o teu silêncio.

365.
Ela prepara o café da manhã e veste os meninos para levá-los ao colégio. Na volta, faz compra no supermercado, limpa a casa, prepara o almoço, cuida da mãe inválida, lava a roupa e passa a ferro o uniforme de seu marido. Lustra os aros que ele usará no espetáculo da noite. Nos cartazes do circo, é a foto dele que aparece como malabarista.

366.
Escolhi a dedo aquele restaurante. Era perfeito: comida espetacular, a luz das velas sobre a mesa, o vinho adequado, os talheres de prata. Tudo convidava ao romance. Ela olhava fixamente para mim no outro lado da mesa, tinha um meio sorriso nos lábios e mexia levemente a cabeça. Tratei de espantá-la com o guardanapo para que não me estragasse a noite, mas, sem dúvida, ela era uma daquelas baratas que não obedecem.

367.
Enquanto a serpente tentava Eva, só Deus sabe o que Adão estava fazendo.

368.
Passou dois dias percorrendo a ilha de ponta a ponta, com sofreguidão. Quando, por fim, comprovou que estava sozinho, acalmou-se, abriu os braços e sorriu.

369.
Naquela manhã Joaquim se levantou da cama e percebeu que tinha poderes. Podia ver dentro de sua própria mente e se lembrar de fatos que só ele tinha vivido. Podia desejar qualquer coisa – e consegui-las – por meio de seu esforço e determinação. Podia fazer os outros sorrirem só mostrando o próprio sorriso. Podia sentir alegria, pena, tristeza, raiva, amizade, amor – era só escolher a circunstância e o sentimento estaria lá. Joaquim só precisava adotar um nome para se sentir um super-herói completo. Escolheu “Homem Comum”.

370.
– De que tipo você vai querer?, perguntou a mulher com a tesoura na mão.
– Como se usa hoje em dia: bem curtinho nos lados e mais cheio no alto da cabeça, para usar com bastante gel. Na parte de trás deixe um pouco mais longo, mas não demais, apenas uma onda caindo suavemente na nuca, respondeu o homem.
– Nossa, parece difícil. E se eu errar a mão e cortar tudo curtinho?
– Não se preocupe. Eu confio em você, Dalila.

 




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