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10 de setembro de 2015

Contos Mínimos # 371 a 380

noe371.
– Amanhã eu pago essas madeiras todas, disse Noé ao lenhador, seu vizinho.

372.
Aproximou suas mãos daquelas mãos, seu rosto daquele rosto, sua boca daquela boca. Não era amor. Era um espelho.

373.
Isso nunca aconteceu desde que nos casamos. Pela primeira vez em muitos anos acordei antes de minha esposa e, quando abri os olhos, percebi que estava ao lado de uma senhora a quem nunca tinha visto em toda a minha vida. Ela despertou momentos depois e me olhou, sorrindo. Antes que eu tivesse qualquer reação, deu-me um beijo carinhoso, sussurrou “bom dia, querido” e levantou-se da cama. Enrolado nos lençóis, observo seus movimentos: ela tira a camisola, coloca o sutiã com enchimento, penteia e prende os cabelos, lambuza-se de creme hidratante e bronzeador, maquia-se ressaltando as bochechas e disfarçando as olheiras, pinta os lábios, coloca com cuidado as lentes de contato azuis, aplica os cílios postiços, veste-se com saia e blusa combinando, calça os sapatos de salto e, vinte minutos depois, eu pude respirar aliviado: ali estava de novo a minha mulher.

374.
Eles nascem, crescem, se reproduzem, se reproduzem, se reproduzem…

375.
Carolina mantém até hoje o costume de conversar com seu marido antes de dormir. Todas as noites ela vai até a cozinha, abre o congelador e enche uma taça de vinho tinto. Bebe lentamente enquanto fala sobre tudo o que fez durante o dia. Quando o sono chega, manda com os dedos um beijo estalado para a cabeça do marido e fecha delicadamente a porta do congelador.

376.
A guerra já durava sete anos. Quando os dois lados ficaram sem munição, não tiveram outra saída: sentaram-se e começaram a dialogar.

377.
A esposa, embora prendada, sempre se esquecia de esvaziar os bolsos das calças de seu marido antes de lavá-las. Hoje, os olhos dele ficaram encharcados, iguais ao bilhete premiado.

378.
Ele se apaixonou pelas flores que ela exibia e se esqueceu das raízes. Não soube o que fazer quando chegou o outono.

379.
Estava parado na entrada do futuro, com medo de avançar. O que lhe dava mais medo, porém, era a ideia de retroceder. Ficou no presente, e ali só havia espaço para ele, a cadeira e a corda.

380.
Despediu-se dela com um beijo nos lábios. “Até amanhã, meu amor, se Deus quiser”. Deus não quis.

 




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