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19 de outubro de 2015

Contos Mínimos # 391 a 400

homem+deitado.gif391.

Deita-se de costas na cama, ofegante, acende um cigarro e fala, olhando o teto: Impressionante! Assombroso! Excepcional! Extraordinário! Surpreendente! Tremendo! Inigualável! Magnífico! Quanta potência! Não há outro igual!

Uma mãozinha tímida acaricia seus cabelos, interrompendo a sequência de adjetivos. Ele gira a cabeça e sorri: “Sim, querida, você também esteve bastante bem”.

392.

Virou a noite trabalhando. Retocou, rearranjou, compôs, apagou. Nas outras vezes não deu tempo, e ele sempre ficava sem receber o pagamento por seu trabalho. Desta vez, não: ele ia conseguir entregar o álbum de fotos do casamento antes que os noivos tivessem oportunidade de se separar.

393.

Ele a acariciou e a beijou antes de colocá-la na posição determinada. Como era mulher e muito esperta, a bola percebeu que era tudo fingimento e se vingou: foi diretamente para os braços do goleiro.

394.

Quando, naquele povoado, todos começaram a se suicidar, os que restaram concluíram que a Maldita não estava fazendo o seu trabalho direito.

395.

– Querido, preciso confessar uma coisa.

– O que é, meu amor?

– É que… antes eu era homem.

– Humm… isso foi há quanto tempo?

– Bom, tecnicamente há cinco anos.

– Não se preocupe. Já prescreveu.

396.

Terminada a sessão e enquanto o público se retira do circo, o palhaço desfaz o riso, esconde-se atrás da cortina e, distante de todos, chora.

397.

Depois de procurar nas diversas livrarias da cidade, encontrou afinal o tão desejado livro: “Como equilibrar sua vida”. Levou o volume para casa e o colocou sob a perna mais curta da poltrona.

398.

Morri e logo em seguida me aposentei. Me divorciei e, ato contínuo, me casei. Tive quatro netos e pouco tempo depois nasceram meus dois filhos. Aos quinze anos me formei e logo aprendi a ler e a escrever. Finalmente nasci.

399.

Era um grande ciclista, famoso no mundo inteiro. Conquistou inúmeros títulos, mas perdeu todos de uma hora para outra. Os fãs estavam intrigados. Ele se dopava?, perguntou um. Não que se saiba, retrucou outro. E então, por quê?, retornou o primeiro. Por isso mesmo. Não se dopava. Isso não parece suspeito?

400.

Pouca coisa me importa. Não me importa que no céu haja estrelas. Não me importa que aí fora latam os cães e miem os gatos. Tampouco o que quis ser na vida e no que me converti. Houve um tempo em que fui jovem, e sei que um dia morrerei. Mas estou aqui, enquanto você dorme suave ao meu lado. Estou aqui, escrevendo, com um copo de uísque na mão e vários no sangue, me sentindo um Bukowski.

 




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