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29 de outubro de 2015

Contos Mínimos # 401 a 410

punhal401.

Tenho um punhal cravado no coração. Se o tirar, morro, por isso prefiro continuar com ele. Não me incomoda e já estou acostumado. É reconfortante saber que, quando me cansar desta vida, só tenho que arrancá-lo do peito.

402.

Cansada de ver o galo seduzindo todas as suas amigas, a galinha dos ovos de ouro decidiu se vingar: passou a botar somente ovos da mais barata bijuteria.

403.

Era um grande ciclista, famoso no mundo inteiro. Conquistou inúmeros títulos, mas perdeu todos de uma hora para outra. Os fãs estavam intrigados. Ele se dopava?, perguntou um. Não que se saiba, retrucou outro. E então, por quê?, retornou o primeiro. Por isso mesmo. Não se dopava. Isso não parece suspeito?

404.

O bombeiro encontrou entre os escombros dois soldadinhos de chumbo grudados pelas mãos. Logo tratou de separá-los, mas não conseguiu. Quando compreendeu a situação, colocou-os no bolso do uniforme, para que tivessem um lugar íntimo e aconchegante para passar a noite.

405.

É uma casa sem janelas, sem portas, sem mesas ou cadeiras. Não há nem uma panela para colher água de uma torneira inexistente. Não há cama que convide ao descanso, nem paredes que detenham ventos inoportunos. Não há telhado que impeça a chuva de inundar tudo. Gavetas, espelhos, ar, chão: não há. O que existe é só a minha insistência em chamá-la de casa.

406.

Um sorriso apareceu em seu rosto quando recebeu nos braços o filho recém-nascido e viu que se parecia com ela. Seria terrível ter que dar explicações.

407.

O masoquista se aproxima do sádico e implora: Bata em mim! Bata em mim com toda a força que você tiver. Eu gosto!

O sádico levanta o braço e se prepara para esbofetear o masoquista, mas se detém. Com um sorriso cruel e frieza nos olhos, diz ao outro: Não!

408.

Senti-me muito solitário no dia do meu funeral. Ninguém veio me consolar. Meus amigos e familiares passavam diante de mim com a cara consternada, mas iam beijar minha esposa e meus filhos como se eles tivessem algo a ver com a difícil viagem que eu estava iniciando. Jamais perdoarei tamanho abandono.

409.

Pouca coisa me importa. Não me importa que no céu haja estrelas. Não me importa que aí fora latam os cães e miem os gatos. Tampouco o que quis ser na vida e no que me converti. Houve um tempo em que fui jovem, e sei que um dia morrerei. Mas estou aqui, enquanto você dorme suave ao meu lado. Estou aqui, escrevendo com um copo de uísque na mão e vários no sangue, me sentindo um Bukowski.

410.

Farto de tanto pedir desculpas durante toda a vida, ele passou a roubá-las.

 




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