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2 de novembro de 2015

Contos Mínimos # 411 a 420

carneirinho411.

Eu já cortei uma árvore e queimei um livro. Sabe o que está faltando, filho meu?

412.

Eu a vi hoje pela manhã. Era ela! Dividimos o mesmo metrô. Senti sua respiração bem próxima de mim. Não a perdi de vista enquanto se movimentava pelo vagão, mas ela pareceu não notar minha presença. Eu vi bem os seus olhos, aquele jeito de olhar. Era ela, estou certo. Desci esbaforido na primeira estação e fiquei parado na plataforma. O trem fechou as portas e percebi que agora ela me olhava pelo vidro da janela. Viu o meu medo e sorriu. Comecei a andar lentamente, sem muita noção de onde estava. O pânico me paralisava. A diferença entre sorte e morte é só uma letra. Eu juro: era ela!

413.

Aquele desconhecido, pendurado no alto da ponte, implorava a Deus uma razão para viver. Ele não sabia que a mamãe de Deus tinha proibido seu filho de falar com desconhecidos.

414.

Um carneirinho, dois carneirinhos, três carneirinhos, quatro carneirinhos, cinco carneirinhos, seis carneirinhos, sete carneirinhos, um lobo, seis carneirinhos, cinco carneirinhos, quatro carneirinhos…

415.

Ela despertou e eu me animo. Busco meu melhor sorriso e me aproximo lentamente da cama. Ela fixa os olhos nos meus, como se estivesse me vendo pela primeira vez. Acaricia minhas bochechas, meus olhos e sobrancelhas: tem a memória na ponta dos dedos. É hoje, penso comigo. Abro o álbum na frente do seu rosto e aponto as fotos: o menino, o homem alto, as férias no interior. Ela olha; não esboça reação. Vira a cabeça na direção da janela e sua vista se perde no horizonte. Fecho o álbum devagar e escondo uma lágrima. Como sempre. Talvez amanhã, murmura a enfermeira. Talvez amanhã, respondo, saindo do quarto.

416.

É terrível a dor de perder um filho, disse ele, a cabeça entre as mãos. Talvez te alivie saber que não era teu filho, disse ela.

417.

Desde o dia em que começou a usar gravata, todos o tratam com deferência: chamam-no de senhor, ouvem suas opiniões e demonstram respeito quando o veem passar. Todos, menos eu, que o conheço bem. Para mim ele continua sendo o mesmo idiota com quem me casei.

418.

Eu nunca pensei que um dia estaria aqui, tomando esse banho de sol tão quentinho. Não nego que a situação seja um tanto incômoda, mas a gente se acostuma. As pessoas se queixam à toa. Dei um pé na bunda nas investigações, nas delações premiadas e em todo aquele carnaval que a imprensa adora fazer. A situação agora é outra e vejo tudo sob um ponto de vista bem diferente. Eu deixei claro para a Alice e as crianças: que não me liguem no celular e façam cara de paisagem quando alguém perguntar por mim. Que só saiam de casa para o estritamente necessário. E que se os companheiros quiserem saber, falem que estou em Barbados ou na Côte d’Azur. Como todos.

419.

Diga que me ama, mesmo que seja mentira. Por acaso eu não minto embora ame você?

420.

Antônia, tome a sopa e deixe de resmungar.

Antônia, anda, vá estudar.

Antônia, nada de namorar, você ainda é uma criança.

Antônia, esse moço não serve pra você, bota ele pra correr.

Antônia, você pensa que somos ricas? Vê se arranja um emprego.

Antônia, troque esse vestido, parece uma maria-mijona!

Antônia, para de roer as unhas, isso me irrita.

Antônia, por que não pinta esses cabelos? Parece uma velha!

Antônia, vamos à missa, estou com fome, não vai me dar banho?, cadê o meu remédio?, a minha fralda está molhada, não vai trocar?, me ponha na cadeira, empurre devagar, não vê que está perto da escada? Para, Antônia, para, para, paaaaara!

 

 




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