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16 de novembro de 2015

Contos Mínimos # 421 a 430

bailarina421.
Era uma vez Valderez. Valderez queria ter um filho. O tempo passava e ela, cada vez mais angustiada, não conseguia realizar seu desejo. Quando completou quarenta anos, farta de esperar, foi à floresta que havia em sua cidade e procurou pela melhor feiticeira que lá havia.

Valderez mostrou sua aflição e pediu conselhos: O que devo fazer? Como posso realizar o maior desejo de minha vida, que é ser mãe? A feiticeira sorriu e procurou acalmar o coração de Valderez. Contou tudo o que ela precisava saber acerca da maternidade.

Quando deixou a floresta, Valderez parecia indignada. Não acreditou em nada do que a feiticeira dissera, principalmente aquela história dos fluidos. Onde já se viu ter que injetar no meio das pernas aquela quantidade enorme de líquido branco e viscoso? Onde é que nós estamos? Na Idade Média, por acaso? Não, com certeza deve haver outra maneira de ter um filho, pensou Valderez. O melhor é buscar uma segunda opinião.

422.
Eu estava louco por ela. Ela, egoísta, só estava louca, nada mais.

423.
Alfredo sempre opinava a favor de sua esposa nos encontros familiares. Nunca a contrariava. A esposa de Alfredo era mestra na arte da ventriloquia.

424.
No tempo do noivado Adalberto era um primor de pessoa. Logo pela manhã chegava à casa da noiva com um buquê de rosas e um beijo de desentupir pia, que quase tirava a respiração da moça. A sogra, dona Firmina, o adorava. Para ela, era Deus no céu e Adalberto na terra. Foi ela, inclusive, quem o abraçou primeiro na noite em que ele fez o pedido de casamento. Depois de casados, as rosas continuaram chegando, não um buquê, mas um maço de três ou quatro, que já estava bom. Tinha beijo também, na bochecha. Dona Firmina acompanhava tudo e o suportava com cortesia e algum sorriso. Depois que os filhos cresceram e saíram de casa, marido e mulher mal se viam. As rosas desapareceram. O beijo, quando tinha, era por e-mail ou telefone. Dona Firmina agora o odeia, mas, para o bem da filha, costuma esconder as pétalas de rosa que sempre encontra no bolso do paletó dele. Do Adalberto, esse porco!

425.
Ela me abraçou, com carinho. Eu a abracei, com fome.

426.
Está pronta. Imóvel, com a espinha ereta, os pés em ponta, o pescoço alongado e os olhos nas mãos estendidas. Permanece em silêncio, aguardando o som metálico que anuncia os primeiros acordes da melodia. É a senha para entrar em cena.

A bailarina renasce, fresca como uva madura. Gira e sorri, os lábios vermelhos e a maquiagem intacta. Dança como se sua vida dependesse disso. Só se ressente da ausência de um companheiro, seria o pas-de-deux perfeito. Eu sei que nunca terei par nem darei os saltos que sei fazer como ninguém, mas nunca errarei uma pirueta.

A música acaba e alguém fecha a caixa. Ela volta a adormecer esperando que amanhã, a qualquer hora, ouça de novo o som metálico e os primeiros acordes da melodia, para então renascer.

427.
E foi assim que comecei a preencher o espaço inteiro de sua vida: indo embora.

428.
Eu a agarrei pelos braços e, sacudindo-a com força, repeti, palavra por palavra, a pergunta que tinha feito minutos antes. De novo, não obtive nenhuma resposta de sua boca, mas seu corpo, esse sim, reagiu: seus olhos ficaram cheios de lágrimas e seu queixo começou a tremer como se estivesse com frio. Um segundo antes de soltá-la compreendi que o que ela calava era justamente o que eu não queria ouvir.

429.
Depois de tanta distância entre nós, não será necessário nem dizer adeus.

430.
Quando ela se despede de mim com um beijo no rosto, seu perfume de maçã verde me atravessa as narinas e gruda na minha pele. Seu olhar e sua voz, brisa fresca na noite abafada. Eu penso: Por que não ela? Ela, minha melhor amiga, a que me faz rir, a que me escuta, a que lê o que escrevo antes que todo mundo… Isso talvez não seja tão descabido assim. Eu a olho fundo e ela lê meus pensamentos. Balança levemente a cabeça e me diz, sorrindo, que não.

 




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