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1 de dezembro de 2015

Contos Mínimos # 431 a 440

advogado431.

Meu filho será advogado. Não um desses advogados que andam por aí, perdendo o sono e os cabelos numa porta de cadeia qualquer. Nem criando barriga e gastando os melhores anos de sua vida numa repartição pública até que a aposentadoria lhe seja oferecida como um prêmio. Não, não e não. Meu filho será um brilhante defensor de causas impossíveis, um orador erudito, um argumentador ante quem todos baixarão a cabeça. Será rico, famoso, respeitado, admirado, temido, invejado. Todos dirão ao vê-lo passar: Ali vai o Grande Advogado. Assim será o meu filho. E não adianta nenhum psicólogo infantil de meia-pataca tentar me convencer de que ele tem sensibilidade e dom natural para a música e o piano. Eu nem perco meu tempo ouvindo essas bobagens de psicólogos que não sabem de nada.

432.

Ela sorriu entre as lágrimas. Ele chorou sobre o copo meio cheio de uísque. Quem olhasse a cena jamais poderia supor que acabava de nascer, de parto natural e dolorido, uma história sobre seres melancólicos e à margem da vida.

433.

Uma porta se fecha. É a porta de sua casa, e não é você quem a fecha. Você está sentado no sofá, imóvel, olhos parados, incrédulos. Você só olha como a porta se fecha, ouve o barulho e permanece aí, estátua. Palavras não fazem falta. Nenhuma palavra. Qualquer palavra.

434.

Depois de arruinar a vida de um sem-número de pessoas e passar dez anos atrás das grades, o banqueiro anunciou que abriria um novo banco. Apareceram milhares de clientes.

435.

O moderador do debate político deu trinta segundos para que cada candidato convencesse o eleitorado a votar nele. A gargalhada escandalosa e sincera de um deles lhe garantiu aplausos estrepitosos e a maioria absoluta de votos.

436.

Para que a cidade cheirasse como merecia, as autoridades decidiram multar quem recolhesse o cocô dos cachorros nas calçadas.

437.

Quando quero deixar a imaginação voar, sento-me na poltrona e fixo os olhos na tela da TV. Quando quero deixar a mente totalmente vazia e em branco, eu ligo a TV na tomada.

438.

Ele costumava brincar de roleta russa. Até que a brincadeira acabou.

439.

Era uma manifestação barulhenta pela liberdade de expressão. Um homem subiu no palanque e deu vivas ao governo vigente. Foi a última coisa que fez na vida.

440.

Quando interromperam a música, ele correu para se sentar na última cadeira livre, mas alguém foi mais rápido. Ele perdeu outra vez a chance de ser Ministro de Estado.

 




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