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15 de dezembro de 2015

Contos Mínimos # 441 a 450

homem sombrio441.

Atolado em dívidas, com as contas saindo pelas orelhas, ele decidiu: Que se dane, não vou pagar mais nada! Respirou fundo, experimentando uma agradável sensação de alívio e liberdade. Até que chegou a fome.

442.

Depois de comerem as uvas e as lentilhas e assistirem bocejando à queima de fogos, eles trocaram o único beijo do ano e continuaram vendo televisão.

443.

Na empresa em que trabalho a alta direção contratou uns consultores caríssimos. Ninguém sabe ainda o motivo. O fato é que, depois que eles chegaram, muita coisa mudou em nossa rotina corporativa. Agora, os grupos de trabalho se chamam work teams, a área encarregada de divulgar informação de interesse coletivo passou a ser um hub, os documentos que produzimos foram batizados de papers e passamos a nos reunir somente nos meeting rooms. O velho e querido “papel de pão” tornou-se brown paper. Enfim… O nosso chefe fica todo vaidoso se o chamamos de boss. Quando a crise chegou, porém, o representante do Human Resources Department me chamou para informar, em perfeito português, que eu estava despedido.

444.

Os dedos dele eram mágicos e faziam maravilhas. Que o digam Chopin, Mozart, Beethoven e Maria Cecília, sua aluna preferida.

445.

Na semana passada ela completou oitenta anos. Ontem morreu sem recordá-los.

446.

Minha tia Catarina perdeu o olfato na guerra, quando ainda era uma criança. Durante toda a vida, porém, fingiu que sentia os cheiros. Quando percebeu que o fim se aproximava, reuniu a família inteira em volta do leito e confessou. Com muito esforço, e sem vergonha nenhuma, explicou que nunca sentiu o cheiro do pão fresco feito pela vovó. Nem o perfume dos cravos que sua irmã trazia nos aniversários. Que nem sequer adivinhava o cheiro dos casamentos, dos funerais, das festas da padroeira, dos jardins por onde passava. Adivinhava o sabor das comidas pela cor. Jamais soube que cheiro tinha a maresia, ou um campo verde, ou a terra molhada de chuva, ou a canela polvilhada nos manjares brancos, ou uma maçã colhida na hora. Nada. Seu nariz, território morto. Ela foi feliz assim, sem os cheiros de uma vida inteira. Disse que não fizeram falta.

447.

Uma vez por dia eles nos deixavam ver o sol. É o mesmo sol que as pessoas livres veem, diziam, em tom encorajador, enquanto abriam as celas e nos colocavam em fila.

448.

Hoje eu madruguei para que Deus me ajudasse, conforme o velho ditado. Mas eu ainda continuo vivo.

449.

São todos uns ignorantes! – assim pensavam todos de todos os demais.

450.

Estavam bem às vezes e eram infelizes quase o tempo todo. Mas ficaram juntos até a morte, por medo de que algum dia um dos dois fosse feliz.

 




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  1. Caro amigo Sérgio Baggio!

    Excelentes os teus contos mínimos, que só conheci hoje. Parabéns! Ótimo o 443; nós já conhecemos isto.
    Vou ler todos os anteriores.

    Abração do Luiz Ferlauto
    011 9 9442 2647

    • Caríssimo Ferlauto, como vai você? Obrigado pela visita ao meu blog, seja sempre bem-vindo. No cabeçalho do blog há o link para os Contos Mínimos. Clique lá e você terá acesso a todos os CMs. Grande abraço.

  2.     
                        
              
            
                

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