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5 de janeiro de 2016

Contos Mínimos # 451 a 460

robô451.

Sou um dos robôs da linha de montagem de uma grande fábrica. Hoje de manhã, num momento de distração, prendi o dedo numa das máquinas. Não doeu muito, mas saiu um fiozinho de sangue, que tratei de limpar bem depressa. Se os chefes percebessem que sou humano e que estou vivo, eu seria despedido na hora.

452.

Levantou o olhar e lá estava ela, inteira, exuberante, iluminada e completamente perdida: sua vida.

453.

Sentadas em linha reta nos dois lados da cama, as mulheres vestidas de negro choram. Na mesinha de cabeceira, quatro velas iluminam o quarto. Sobre a cômoda, as taças vazias de licor indicam que, minutos antes, houve ali uma comemoração. Agora só o pranto das carpideiras têm lugar. Todas elas escondem os cabelos com lenços e não tiram os olhos do leito. Choram desconsoladas. No centro da cama, sobre o lençol branco de linho, um bebê ri e mexe os bracinhos, alheio ao que acontece à sua volta.

454.

O Natal lhe dava sono, mas ele ali estava, na varanda, com uma taça de espumante na mão, contemplando a cidade iluminada como um presépio a seus pés. A manhã que veio depois revelou que a varanda era a sarjeta de uma avenida vazia e o espumante, uma sidra quente e muito azeda. Ali, ao pé dele, só o chapéu vazio. O Natal também lhe dava fome.

455.

Não foi quando ela me olhou e me sorriu, nem quando me fez gemer na cama e voar até o céu de prazer. Não. Só quando a escutei batendo a porta com raiva eu soube o que era amor.

456.

– E o céu, como é o céu?

– É um lugar muito bonito, com uma beleza que nunca se viu por aqui. Há vales e montanhas cobertas de árvores, muitos oceanos e rios, prados verdes, edifícios altos, estradas de terra e de asfalto e pessoas que caminham sobre elas, umas a pé e outras sobre rodas. Agora procure dormir, meu anjo.

457.

Tinha amnésia. Rapidamente foi se esquecendo de tudo, até que se esqueceu de que tinha amnésia. E então foi aos poucos se lembrando de tudo… até que se lembrou de que tinha amnésia.

458.

Era um sujeito tão folgado e preguiçoso, mas tão folgado e preguiçoso, que queria que o mundo acabasse em barranco, só para morrer encostado.

459.

Ela preparou os bolinhos de nuvem e o suco de chuva com o maior capricho. Pôs a mesa e esperou. Queria muito abraçá-los e beijá-los de novo. Não teria que esperar muito. Viu quando eles saíram de casa e entraram no carro: a pequena Tatiana com seu ursinho de pelúcia e o maiorzinho, Augustinho, que parecia um pequeno homem com o uniforme da escola. Também viu o caminhão que se aproximava em grande velocidade do cruzamento, justo quando o carro em que eles estavam ia passar. Ninguém teve tempo de perceber coisa alguma. Ela sim, e se preparou para recebê-los.

460.

Da minha janela olho a rua. Dois meninos caminham. Atitude suspeita: olham para os lados, olham para trás. Param perto de um carro estacionado. Vão roubar o carro, penso. Os meninos se beijam.

 

 




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