Close

15 de janeiro de 2016

Contos Mínimos # 461 a 470

balcão2461.

– Sinto muito, senhor, mas estamos sem lágrimas no momento.

– Puxa, que pena! Procurou bem?

– Por toda a loja, senhor. Nosso estoque acabou, tivemos muita procura nos últimos dias. Mas, caso necessite, ainda temos grande quantidade de mágoas, gargalhadas e ressentimentos. Também temos…

– Não, obrigado. Eu preciso mesmo de lágrimas.

– Eram para hoje, senhor?

– Sim, para esta noite.

– Perguntei porque eu poderia pedir na fábrica, mas só estariam disponíveis amanhã.

– Amanhã já seria tarde demais. Bom, obrigado de qualquer forma. Vou ter que pensar num outro jeito de conversar com minha mulher, que quer ir embora de casa levando as crianças.

– Sorte, senhor.

– Ah, de sorte eu preciso um quilo e meio, por favor.

462.

Ele estava atordoado, respirava com dificuldade, mas foi abrindo caminho aos poucos, centímetro por centímetro. Exalava um cheiro esquisito e sobre a pele tinha sangue e um líquido viscoso. Só conseguia mover as extremidades, mas avançava mesmo assim, com muito esforço. Notou, de repente, uma mão enorme agarrando sua cabeça com força. Tudo aconteceu em poucos segundos e, quando percebeu, estava preso pelas pernas, de cabeça para baixo. Chorou muito quando recebeu dois tapas fortes nas nádegas.

– Parabéns, mamãe, é um meninão!

463.

O fato é que decidi, nessa minha breve passagem por este mundo, experimentar de tudo. Provar tudo. Viver sem seguir regras ou convenções, sem preconceitos e sem gênero. Assim, me chamei Carlos e me chamei Janete, fui feio e gostosa, fui amado e desgraçada, feliz e jogada fora, fui estudante, atendente de lanchonete, casado, divorciada, mãe e pai ao mesmo tempo… E, finalmente, uma moradora de rua e um viciado em crack. Surpreendidos, os cientistas estudaram meus hormônios, meus genes, meus cromossomos. Gênero neutro, disseram. Eu chamo de gênero humano.

464.

Por que você saiu voando quando eu acabei de vender as minhas asas para lhe comprar um presente?

465.

BumbumRoliço entra na sala.

BumbumRoliço: Oi.

Dotadão21cm: Oi.

BumbumRoliço: Idade?

Dotadão21cm: 39, e você?

(…)

Dotadão21cm: ???

(…)

Dotadão21cm: Cadê você?

BumbumRoliço sai da sala.

466.

Com o apagão de energia, tiveram a chance de discutir a relação, falar sobre tudo o que os incomodava, colocar as desavenças em pratos limpos. Quando iam pedir perdão um ao outro, a luz voltou.

467.

– Por favor, pode me dizer onde encontro a nova edição da Odisseia?

– Quem é o autor? – pergunta o jovem atendente da livraria.

– Homero.

– Homero… – o jovem repete e digita no teclado do computador. Pensa. Volta a digitar. Coça o queixo. Pensa de novo. Olha para o cliente: – Esse nome, Homero, é com agá ou sem agá?

– Com agá.

– Ah, achei! Tá aqui. Grita para a colega, no outro lado da livraria: – Ju, lindinha, pode procurar a Odisseia para o cliente? É aí na sua seção. O autor é um tal de Homero. Se escreve com agá.

468.

– Por favor, seja breve – disse o funcionário público, mostrando a cara de enfado pelo vidro do guichê.

Alberto não sabia ser breve. Gostava de contar as coisas com detalhes, amava os detalhes porque acreditava que a beleza da vida estava neles, nos pormenores tão específicos e por isso mesmo tão saborosos. Vendo, porém, que o atendente estava sem paciência para ouvir histórias, resolveu fazer um esforço e resumiu tudo: Matei o meu vizinho.

469.

A única coisa que tenho nesta vida são minhas palavras. Quando as escrevo, deixam de ser minhas.

470.

Cheguei ao inferno e, rapaz!, que serviço de primeira! Foi só entrar e já vieram me atender e oferecer os produtos da casa: praias deslumbrantes, passeios com tudo incluído, comida e bebida da melhor qualidade, música no ar, paisagens de tirar o fôlego. Essa coisa do clima quente… que nada!, a gente logo se acostuma. O chato é ter que passar no meio da favela, mas, com o ar condicionado fresquinho, a gente nem nota. E é barato, meu amigo, como é barato! Com um abraço ou um aperto de mão bem dado, a gente pode adquirir o serviço e vender a alma. Assim, sem a menor burocracia. Recomendo.

 




Tags:,

15 de janeiro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos Minímos contos, mínimos

               
              
            
                

Deixe um comentário