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28 de janeiro de 2016

Contos Mínimos # 471 a 480

jn471.

Farto de ver tanta realidade à sua volta, ele se sentou na poltrona para assistir ao Jornal Nacional.

472.

O homem se prepara para dormir. Já na cama, não consegue pegar no sono. Vira para os lados, se enrola nos lençóis, tenta contar carneirinhos. Nada. Acende a luz, senta-se na cama e acende um cigarro. Pega um livro para ler. Nada. Torna a apagar a luz. Nada. Às três da madrugada se levanta e resolve dar um passeio pelo quarteirão. Imagina que, cansando-se um pouco, o sono venha mais facilmente. Nada acontece. De volta à casa, toma uma xícara de chá e deita-se de novo. Nada. Às seis da manhã pega o revólver na gaveta do criado-mudo e dispara contra a têmpora direita. O homem agora está morto, mas não conseguiu pegar no sono. A insônia é uma coisa muito persistente.

473.

Finalizou o discurso anual que faria logo mais à noite, na festa de fim de ano da empresa. Limpou a garganta e leu o texto em voz alta. De sua boca saíram expressões como crise, trabalho em equipe, foco nos resultados, otimismo, “vamo que vamo”, vestir a camisa, cumprimento de metas, agregar valores etc. Percebeu que tinha usado essas mesmas palavras no discurso do ano anterior. E no do anterior. Neste ano, como nos outros, não tinha nada a dizer.

474.

O CEO daquela empresa tinha ideias tão sensatas que pareciam uma verdadeira loucura.

475.

Um homem entra em sua casa, cansado do trabalho, a noite avançando. Tudo está mudado: não reconhece os móveis e objetos e poderia jurar que, onde agora está o banheiro, era a biblioteca. Tanto faz, pensa, eu só quero descansar. Joga-se no sofá, tira os sapatos e a gravata. Estava quase pegando no sono quando ouve O jantar está pronto, querido. Pensa que essa mulher deve ser sua esposa, e esses dois meninos, seus filhos. Vai perguntar alguma coisa quando ela o apressa: Coma logo, não deixe o ensopado esfriar. Os quatro comem em silêncio, olhando-se furtivamente pelo canto dos olhos. Os meninos soltam risinhos abafados. Depois do jantar, um pouco de televisão e logo chega a hora de dormir. Na cama, enquanto a mulher dorme, o homem pensa e tenta entender as coisas. Conclui que deve ter errado de casa. Ou de vida.

476.

Um dia desses, qualquer dia – e torçamos para que seja logo -, todos os olhos abandonarão a tela brilhante dos telefones e passarão a olhar os olhos da vida.

477.

Era fã de promoções e liquidações das lojas da cidade. Bastava ver um cartaz dizendo “Rebaixamos os preços” e lá estava ela, ereta, em pé por horas a fio. Começou a pensar que não só as lojas tinham rebaixado os preços: sua própria vida estava rebaixada.

478.

Um dia ela se cansou de ouvir gritos em casa. Decidiu deixar de viver sozinha.

479.

Ele tinha um método infalível para evitar a morte: negava sua existência. Argumentava: Se não está presente na minha cabeça e nos meus pensamentos, simplesmente não existe. Assim, todas as manhãs, ao sair da cama, dizia em voz alta: Não existe, não é real. Conseguiu resultados esplêndidos durante muitos e muitos anos e por décadas repetiu o mesmo mantra. Inclusive depois de morto.

480.

Primeiro ele as olha e, depois de se certificar de que são suas, ele as beija. Bem que seu médico avisou que um dia ele não as reconheceria. Por isso repete o ritual cada manhã: olha as próprias mãos e as beija. Verifica cada mancha, cada veia, cada sinal. São suas marcas nas mãos que teve durante toda a vida. Em breve ele deixará de perceber que sempre estiveram aí, na extremidade dos braços. Depois, animado por saber que ainda está lúcido, olha-se nos olhos na frente do espelho e sussurra: Por favor, não se esqueça de mim ainda.

 

 




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28 de janeiro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos Minímos contos, mínimos

              
            
    • E em março sairá meu primeiro livro publicado. O título é “A (extra)ordinária vida real”. O lançamento será no dia 17 de março, uma quinta-feira. Vou publicar o convite no FB e no Linkedin. Que tal se você viesse de BsAs, hein? Seria uma honra pra mim. Abraço.

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