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15 de fevereiro de 2016

Contos Mínimos # 481 a 490

paisagem da janela3481.

A primeira coisa que uma pessoa deve fazer assim que se levanta da cama e abre a janela é envergonhar-se de si mesma.

482.

Nós, as pessoas sensatas e de bem, temos a capacidade de escolher e também o direito de, às vezes, nos equivocar. Eu escolhi me sentar no sofá; você, na poltrona no outro lado da sala. Eu escolhi tomar café; você, uma xícara de chá. Eu escolhi olhar pra você e suspirar, resignado; você, ler um livro como se eu não existisse. Poderia ser pior: você poderia ter ligado a televisão.

483.

Beberam até quase caírem. E se xingaram, se magoaram, se feriram, se ofenderam. A noite avançou e o dia os encontrou caídos na sarjeta. Olharam-se e não se reconheceram. Só quando viram o conteúdo de seu vômito é que se lembraram de que tinham jantado juntos na noite anterior.

484.

Jurandir voltava para casa tarde da noite, caminhando devagar pelas ruas desertas. Ao atravessar um viaduto, viu, na calçada oposta, uma mulher sentada na mureta, olhando fixamente para baixo. Ela vai pular, pensou ele. Sem fazer ruído, Jurandir atravessou a rua e se aproximou dela. Olhou em volta e, vendo que não vinha ninguém, empurrou-a.

485.

Não, minha senhora, os voos não foram cancelados devido ao mau tempo. Foi por causa do arco-íris que apareceu no céu e que ainda está lá. Os pilotos têm medo de passar por cima ou por baixo dele. Dizem que dá azar e algo terrível pode acontecer ao avião. Compreendeu, minha senhora?

486.

Olho em volta e digo Este ano temos que trocar o piso da sala. Ela responde É, temos que cuidar disso. Continuamos assistindo ao filme na televisão. Esse filme é uma bosta, eu digo. Ela concorda com a cabeça. Mas não mudamos de canal. The End e eu digo que estou com sono. Ela não responde: já está dormindo. Durmo também. Quando acordo, vejo que ela prepara o café, a televisão está desligada e o sol entra pela vidraça sem pedir licença. Ela para na soleira com uma maçã na mão, olha para mim e diz Cerâmica. Devíamos colocar cerâmica no piso da sala. Eu respondo que o filme de ontem foi o pior que eu já vi na vida. Ela dá uma dentada na maçã e volta à cozinha para terminar de fazer o café.

487.

O padre Jairo não se conforma nem se dá por vencido: um dia ainda verá Janete enquadrada nas normas da igreja e dos bons costumes cristãos. Como ela se atreve a não frequentar a missa nem o confessionário? Mas um dia eu dobro essa moça. Assim pensa o padre Jairo quando vê Janete, desafiadora, passar pela porta da matriz com seu vestido curto, o andar cadenciado e aquele sorriso permanente nos lábios.

488.

Deitado na cama, o rapazinho a olhava enquanto ela se vestia. Disse que a amava e ela riu. Que fofo!, respondeu ela. Mas isso não tem nada a ver com amor, querido. Não seja bobinho e coloque o dinheiro ali na mesinha. E vista-se depressa, que hoje a casa tá cheia.

489.

A mulher se aproxima do corpo inerte de seu filho. A pauladas, ele foi morto a pauladas! Tapa a boca com as duas mãos para sufocar o grito que explode em sua garganta. Volta a cabeça e encara o assassino, que continua ali, com o pedaço de pau ainda nas mãos. Seu olhar não é de ódio, mas de amor dilacerado, amor de mãe. Agarra com força o próprio ventre de onde ambos saíram e agora sim, o grito de animal ferido rompe o ar e alcança o firmamento. Mais que um grito: é uma pergunta que jamais terá resposta.

490.

Estava tomado pela amargura e com o coração apertado de tanta tristeza. Decidiu pedir ajuda a seus dois mil, oitocentos e vinte e três seguidores e com eles dividir a dor. Compartilhou sua angústia com a maior sinceridade do mundo. Recebeu, nos minutos seguintes, milhares de curtidas, likes, “tamo junto”, “Deus está no comando”, “Maria vai na frente” e muitos votos de sorte, força, ânimo, coragem. Desesperançado, desligou o computador e abraçou seu cachorro.

 




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