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29 de fevereiro de 2016

Contos Mínimos # 491 a 500

andorinhas491.

As andorinhas engendram e sonham e tecem primaveras e verões porque essa é a sua sina. É para isso que foram criadas. Elas trabalham no inverno, quando ninguém pensa em sua existência.

492.

O ônibus saiu de seu trajeto habitual e avançou por outras ruas e avenidas. Um velhinho, sentado no banco da frente, percebeu e estranhou. Perguntou ao motorista, que respondeu: “Novo itinerário. São ordens.”. Os demais passageiros ficaram aflitos e viram pela janela a cidade se distanciar. Dois adolescentes se entreolharam: iam chegar tarde ao colégio. Um homem fez menção de protestar, mas as pessoas ao lado trataram de acalmá-lo: “Não adianta. São ordens.”. Quando o ônibus chegou ao ponto final, já não havia edifícios, nem casas, nem praças, nem rua alguma, apenas o deserto. Os passageiros desceram, o ônibus fez meia-volta e partiu. Todos ficaram ali, sob o sol, esperando a próxima condução. Ninguém conseguiu entender o que tinha acontecido, mas todos estavam cientes de que “eram ordens”.

493.

Juca foi contratado pela empresa e, como não havia espaço disponível no andar, foi instalado no elevador. Ele ficou lá, numa mesinha apertada, e procurava fazer o seu trabalho. No começo, todos os que entravam e saíam estranharam a presença do Juca, mas em pouco tempo se acostumaram. Conversavam com ele, faziam piadas, trocavam ideias. Quando voltavam do almoço, sempre traziam uma sobremesa para ele. O chefe logo ficou incomodado, disse que ele se distraía muito durante o expediente e não produzia o necessário. O diretor de RH foi falar com o Juca e, no tempo que o elevador levou para ir do primeiro ao último andar, lhe comunicou que estava despedido.

494.

Ninguém se atreveu a atirar aquela primeira pedra, mas todos tinham uma guardada no bolso.

495.

Quando eram namorados, e com o pouco dinheiro que tinham, criaram o hábito de trocar “presentes virtuais” nas datas festivas. Usavam os “bilhetinhos de presentes”. Era assim: no Natal, ele dava a ela um bilhetinho em que se lia “um colar de pérolas negras”; ela retribuía com “um Rolex todo de ouro”. No Dia dos Namorados, ele a presenteava com “uma caixa de chocolate Godiva”, daqueles que não engordavam, e ela retribuía com “um smartphone”. O coração dela quase parou quando, na Páscoa, recebeu um bilhete em que leu “uma aliança de casamento de ouro e diamante”. Consideravam-se casados desde então. A troca de bilhetes continuou por mais algum tempo até que no último Natal ela recebeu “um liquidificador”. Soube, então, que a magia terminara, e o casamento também. Ele deu de ombros e escreveu no bilhete seguinte: “O que vale é a intenção”.

496.

Há trinta anos trabalho nessa empresa. Lembro-me bem dos primeiros anos: eu era um estagiário que chegava sempre antes do horário para causar boa impressão. Tempos depois, com a rotina já instalada, eu me limitava a estar em minha mesa no horário certo, para não levar advertências. Agora eu chego atrasado todos os dias, e ninguém parece se incomodar. É como um casamento: depois de trinta anos juntos, quem se importa com o que quer que seja?

497.

Ele sai primeiro, depois ela, do quarto do motel. Como sempre faz, ela, romântica, deixa uma flor em cima dos lençóis amassados. Entra em casa, dá um abraço na mãe e a ajuda a terminar o jantar. Seu padrasto chega logo depois. Dá um beijo nos lábios da esposa e um na testa da enteada (ele morre de medo de se equivocar com esses beijos. Vai que…).

498.

Os quinze homens entram animados na sala de reunião e começam a falar de imediato. Expõem, explicam, sugerem, decretam, planejam, justificam, apresentam, validam, dão risadas e trocam tapinhas nas costas. Logo saem para o café. Na volta, argumentam, fundamentam, concordam, discordam e saem para o almoço. À tarde, voltam a se reunir e a expor, a explicar, a sugerir, a decretar, a planejar, a justificar, a apresentar e a validar. Saem todos satisfeitos por terem finalmente escolhido o responsável pelo projeto.

499.

Dois pontos: fazem amor um em cima do outro, sem se importarem com o gênero literário.

500.

Deus disse ao homem: “Não és digno”.

O homem respondeu a Deus: “Não és”.

 




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