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14 de março de 2016

Contos Mínimos # 501 a 510

vodu501.

Fomos convocados, em caráter de urgência, para uma reunião na empresa. Os altos executivos queriam nos colocar a par das novas técnicas de vendas que deveremos adotar daqui por diante. Eles salientaram as vantagens do vodu sobre as metodologias tradicionais. Cada um de nós deveria escolher e levar para a empresa um bonequinho e nosso próprio jogo de agulhas. Dissseram que não será difícil obter resultados comerciais significativos com esse procedimento. Para efetuar uma venda com eficiência, basta mentalizar o rosto do cliente e cravar as agulhas no boneco, dizendo baixinho: Você vai comprar, fdp! Você vai comprar, fdp! Você vai comprar, fdp! Saímos todos muito animados da reunião, com a certeza de que agora as vendas de nossa empresa atingirão as alturas.

502.

De longe vejo a pedra no meio do caminho. Reconheço-a. Sei que é ela. Começo a correr. Vou tropeçar, mas desta vez com alegria, propósito e premeditação.

503.

Depois que fazem amor, Carlos e Helena se deitam de costas e fitam o teto, em silêncio. Ainda queima, no pensamento dos dois, a saudade do tempo em que fodiam.

504.

Só pra me provocar, minha ex-noiva me enviou fotos com seu atual namorado fazendo sexo. Minha reação foi a de qualquer ser humano razoável: mandei todas as imagens para o pai dela.

505.

As feridas, os cortes, os arranhões, as perfurações, as lesões, as desilusões, as mágoas, as decepções, as tristezas – tudo, tudo se fecha no mesmo lugar em que se abre.

506.

– Norberto, por que você vive me olhando fixamente assim?, gritou o chefe.

Norberto pediu desculpas, abaixou a cabeça e continuou a trabalhar. Essa pergunta… Norberto a ouvia o tempo todo nas últimas semanas. Foi ao oftalmologista. O médico não encontrou nada errado em seus olhos, nem considerou necessário usar óculos. Norberto, em vez de se alegrar, começou a chorar.

– Ah, doutor, tenho certeza de que algo está mal. Estou doente. Eu vejo tudo, entende? Tudo!

507.

Homem, preste bastante atenção e acredite: te chupariam mais o pau, e com mais intensidade, se, em vez de esperma, extraíssem sangue.

508.

Quando percebeu, já era tarde demais. Alberto teve que frear bruscamente o carro. Ia passar quando o sinal ainda estava amarelo, não fosse a velhinha ter iniciado a travessia da rua naquele exato instante. Tinha conseguido escapar das outras vezes, mas agora, que lástima! Viu com o canto dos olhos quando ele se aproximou. Ariela, no banco ao lado, sufocou um grito e tapou o rosto para não ver. Alberto ficou firme segurando o volante. O homem desdentado e sujo chegou perto do carro e, com cara de poucos amigos, começou a ensaboar o para-brisa, enquanto olhava fixamente para os ocupantes do automóvel.

509.

Volto pra casa, desfaço as malas e tomo um banho. Olho as duas mil e quinhentas fotos de igrejas, monumentos, museus, praças e pontes em meu celular. Tenho uma vaga ideia de ter estado nesses lugares nos últimos dias. Abro uma cerveja e começo a desfrutar de minhas férias.

510.

Às 23h30 do dia 15 de março de 2025, sábado, o comando central do Ministério da Cultura, Controle e Vigilância detectou a infração e pôs em prática o procedimento padrão para casos assim. Quinze minutos mais tarde, Francisco Torres era levado preso pelos agentes federais por ter desligado sua televisão no horário de audiência máxima.

 




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14 de março de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos Minímos contos, mínimos

              
            
  1. Ah…acho q so com vodu agora pra alguem comprar qq coisa, mas me deu um idéia, uma oportunidade de negócios. Vou vender bonecos de parlamentares pela internet…Acha q resolve?

    • Vai ter muitos clientes, tenho certeza. Cada um com seu bonequinho de vodu, com cara de parlamentar. Eu vou comprar o Eduardo Cunha, e socar ele de agulha. Abraço.

  2.     
                        
              
            
                

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