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25 de abril de 2016

Contos Mínimos # 521 a 530

flores para a namorada2521.

Chegou ao local do encontro atrasado, ofegante, banhado em suor, mas com o buquê de rosas intacto. Encontrou a noiva esperando na esquina. Respirou fundo, sorriu seu melhor sorriso e entregou as flores a ela, dizendo: Eu também te odeio, querida!

522.

Nunca deixou de se sentir feliz, nem quando tinha que utilizar as próprias lágrimas para amolecer o pão duro.

523.

Gritou sua dor com tanta força que o eco se calou por solidariedade e respeito.

524.

Ester saiu do quarto e gritou quando deu com ele na sala, abrindo e fechando gavetas. Protegeu com as mãos o decote da camisola e, controlando a voz, perguntou quem ele era, como tinha entrado na casa e, por favor, que não lhe fizesse mal nenhum. Ele, sem interromper a busca que fazia nos móveis da sala, respondeu que deixasse de se fazer de louca, que ficasse de bico calado e que o ajudasse a procurar as malditas pilhas para o controle remoto da televisão. Assombrada, Ester correu de volta para o quarto. Pegou o álbum de seu casamento e olhou longamente as fotos. Vestiu-se apressada e saiu de casa sem que ele percebesse. Foi até o juiz e entrou com o pedido de divórcio contra esse estranho que — agora ela sabia — era seu marido.

525.

Uma vez escrevi um conto com exatas cem palavras. Foi um feito e tanto! As pessoas o leram com entusiasmo e o recomendaram a seus amigos e aos amigos dos amigos. Fui convidado para entrevistas e programas de auditório — todos queriam saber como pude produzir um texto tão enxuto, tão conciso e, ao mesmo tempo, tão abrangente. Os críticos literários se derramaram em elogios nos jornais e revistas do país inteiro. Até um produtor de Hollywood me telefonou, dizendo-se interessado em adaptar minha história para o cinema e que iria convidar Tarantino para dirigir… Tarantino! Eu mal podia acreditar. Foi então que alguém descobriu que eu havia escrito “porque” no lugar do mais adequado “por que”. Isso caiu como um balde de gelo na fervura da minha alegria. Não era mais um conto de cem palavras… Estava sobrando uma! Mas o texto estava perfeito, como fazer para que voltasse a ter a centena exata de termos? Depois de muito pensar, resolvi eliminar um artigo da narrativa, mas já não era a mesma coisa. Hoje os críticos me ignoram, ninguém mais me chama para entrevistas e estou até agora esperando o telefonema do Tarantino.

526.

Quando as crianças começaram a matar seus pais, os meios de comunicação se apressaram em culpar a televisão, a internet e o nível catastrófico do ensino nas escolas. Muitos pais se organizaram em associações para se defender dos ataques, e a primeira medida foi expulsar os filhos de casa. As ruas logo se encheram de pivetes raivosos. Em casa, os pais não perdiam de vista os menores, para ver se encontravam em seus olhos o mesmo brilho de ódio que havia no olhar dos mais crescidos. Nas associações já se comentava que não poderiam adiar por muito mais tempo a “solução final”.

527.

Sou tão feliz sem mim, que me arrependo amargamente de não ter me matado antes.

528.

Lendo a Bíblia eu aprendi a amar, a respeitar, a ser caridoso, a compartilhar. E a crucificar também.

529.

E nem tente escapar, entendeu? Há câmeras na casa inteira, no corredor e também na entrada do prédio. Fugir daqui é dar um tiro no pé, como você mesmo vive dizendo, seu merda! E agora, anda, papai, deixe de conversa mole e me dê a chave do carro, que meus amigos já estão impacientes lá embaixo.

530.

— Belzebu, Grande Senhor das Trevas, eu te invoco! Dá-me a graça da tua presença.

— Já estou aqui, não precisa fazer cena nem essa voz cavernosa de Zé do Caixão, que coisa chata!

— Mas, Senhor, minha voz é assim…

— Que seja. E pra que essa galinha com o pescoço degolado? E esse sangue todo? Precisa fazer tanta sujeira?

— É que eu sei que isso é do teu agrado, Senhor.

— Quem é que te falou essa asneira?

— Eu vi no cinema.

— Ah, Hollywood, puto Hollywood! Eu sabia que não devia ter inventado aquela merda.

 




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