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6 de maio de 2016

Contos Mínimos # 531 a 540

dilúvio531.

Com relâmpagos, raios e muita chuva, soltou sua ira sobre os mortais da Terra. Oceanos transbordaram e inundaram a superfície sem a menor compaixão pela mais inocente criatura. Ventos gelados de força descomunal arrasaram bosques, florestas e selvas, aniquilando qualquer vestígio de vida. Isso durou vinte dias e vinte noites, durante os quais o mundo foi impiedosamente açoitado. Quando tudo passou, quando já não havia viv’alma caminhando sobre o barro que se formara, quando nenhuma planta buscava a luz do sol e animal algum procurava pasto para matar a fome, o rancoroso deus já nem se lembrava mais do motivo de sua fúria.

532.

Saía com óculos escuros mesmo quando não havia sol, mesmo quando chovia, mesmo quando havia nuvens carregadas no céu. As surras que levava do marido desconheciam o clima e as estações.

533.

Assim que chegou ao local do encontro, Jonas entregou o ramo de flores a Cecília. Nervoso, olhava para todos os lados, menos para os olhos da namorada. Ela, por seu turno, não tirava os olhos das flores. Tem uma abelha aqui, disse. Jonas sacudiu o buquê e o inseto voou. Deram-se as mãos e foram a um café. Ali se beijaram, se acariciaram e disseram palavras bonitas um ao outro. Mais um café, outros tantos beijos e se despediram. No caminho para casa, Cecília olhou o relógio: cinco minutos depois da meia-noite. Foi até uma lata de lixo e jogou fora o buquê. Já tinha acabado essa chatice de Dia dos Namorados.

534.

Voltaram a ser amigos quando encontraram um inimigo comum.

535.

Não seja boba! Como não quero você? Eu rio quando você ri, sofro quando você sofre, fico triste com a sua tristeza. Sei que vou morrer quando matar você.

536.

Assim que o sol se punha ele se sentava na beira do canal e, com uma varinha nas mãos, tentava pescar. Um transeunte, intrigado, aproximou-se dele:

— Eles mordem a essa hora da noite?

O pescador voltou a cabeça lentamente em sua direção, cravando nele os olhos vermelhos. Sorriu mostrando os caninos enormes:

— Sim, pode-se dizer assim… Mordem.

537.

Passou os últimos anos de sua vida abraçado a uma fotografia. Ninguém nunca soube se era por amor à pessoa retratada ou ao tempo perdido.

538.

Ultimamente minha mulher e eu temos provado coisas novas na cama. Experimentamos novidades todas as noites. Ontem mesmo passamos horas descascando laranjas antes de dormir.

539.

Duas moscas nadavam no prato de sopa. Uma por gula, a outra por solidariedade à primeira. No fim, as duas morreram, com a diferença de que uma delas estava com o estômago cheio.

540.

Com gritinhos de satisfação, ela olha a cabeça do homem que amou dando voltas na lavadora, no meio de inúmeras calcinhas velhas. Sorri quando encontra os olhos do antigo companheiro, agora afogado na espuma do sabão em pó. Não se preocupe, meu amor, vai ficar melhor, diz ela, adicionando o amaciante com aroma de alfazema. Não era esse o perfume que as suas vagabundas usavam? Pois então farte-se! Programou a máquina para mais trinta minutos de lavagem.

 




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