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20 de maio de 2016

Contos Mínimos # 541 a 550

cavalo541.

O pior de não se lembrar de nada é não reconhecer ninguém. E assim vamos pela vida, completamente sozinhos, gravitando entre pessoas de quem não sabemos o nome nem a cor da voz. Não sabemos também se a mão que se levanta na frente do nosso rosto vai nos acariciar ou nos dar uma bofetada. E, por não sabermos o que querem de nós ou fazer conosco, adquirimos o gesto de proteger a cabeça com os ombros e jogar o corpo para trás. Como um cavalo muito tímido e arredio. Ou uma tartaruga.

542.

Um deles acredita ser Jesus Cristo, outro, um passarinho azul, e aquele que fuma sem parar, o conde Drácula. Em pior situação estou eu, que não perco a consciência de ser eu mesmo.

543.

Conforme os meses passavam, Angelina ia perdendo as esperanças que tinha na vida. Conseguiu juntar um pouco de dinheiro com o salário miserável que ganhava como caixa num supermercado. Agora, desempregada e com as economias perto do fim, não viu outra solução a não ser vender o pouco que acumulou. A televisão de tela plana, um casaco de frio, um anel herdado da mãe, o liquidificador e a cafeteira — tudo o que possuía virou dinheiro para sobreviver. Hoje jogou no lixo o sonho de ser mãe. Angelina sabe que é muito difícil vender sonhos. Eles não têm preço. Nem valor algum no mercado.

544.

Saí à rua e percebi, contrariado, que tinha permanecido em casa. Por esse motivo decidi voltar pelo mesmo caminho. Ao atravessar um cruzamento, quase fui atropelado. Meu Deus! Se o carro me pegasse, agora estaria morto e não teria voltado para casa, como era meu intento, mas consegui finalmente chegar. Quando me vi passar pela porta, respirei aliviado.

545.

Saem separadamente do quarto de hotel — não querem chamar a atenção. Fazem hora num bar perto dali. Ele se senta no balcão, pede um café e o jornal do dia; ela ocupa uma mesa no fundo, pede água com gás. Saem poucos minutos depois — primeiro um, depois a outra, e vão para a igreja. Ela entra pela porta lateral, ele, pela sacristia. Ela não comunga, sente-se em pecado, pensa no marido que hoje à noite voltará da viagem de negócios. Ele não tem alternativa: tem que comungar, lá no altar, em todas as missas que reza.

546.

Eu quis dizer que a amava, mas ela se adiantou e disse primeiro. A outro.

547.

Quando passar sobre uma ponte, não olhe para baixo: você pode encontrar alguém em agonia, quase morto. Se isso acontecer, finja que não viu. Se o quase-morto lhe chamar, não desça até lá, mas, se optar por descer, não fale com ele. É certo que tentará convencê-lo a lhe dar sua vida. Se você lhe der sua vida, reze para que alguém passe sobre a ponte e olhe para baixo.

548.

Repare: tudo acontece um pouquinho antes de acontecer de fato.

549.

Com a fumaça do avião desenhou um coração no céu, em homenagem à esposa. Mas a viúva só se lembra do horrível acidente que aconteceu depois.

550.

Naquele país, os homens criam corvos para que devorem os vermes — é uma tradição ancestral e rancorosa contra aqueles que comerão suas carnes quando não tiverem mais vida. A realidade, porém, é bastante diferente: os corvos não comem os vermes porque o instinto assim lhes ordena, mas porque aquelas minhoquinhas têm um sabor a humanos que eles apreciam muito. Os corvos odeiam os homens e, se pudessem, lhes arrancariam os olhos, mas não o fazem porque isso seria perder a compostura e a elegância. Corvos do bem jamais se prestariam a esse papel.

 




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