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7 de junho de 2016

Contos Mínimos # 551 a 560

passarinho de papel551.

A cada vez que termina um poema, o poeta dobra o papel em forma de passarinho e o lança pela janela. Quase todos terminam no chão, amassados, pisoteados, cheios de poeira. Só alguns — aqueles que têm autêntica poesia — conseguem agitar as asas e alçar voo, sumindo no horizonte. Nenhum deles regressa.

552.

O Estado lhe comunicou primeiro que ele deveria se aposentar aos sessenta e cinco anos de idade. Pouco tempo depois, aos setenta e oito e finalmente, depois de muitas mudanças de governo e alterações na legislação, aos noventa e cinco. Quando o homem morreu aos oitenta e dois anos, recebeu no cemitério uma carta registrada informando que, devido à sua morte prematura, foi-lhe negado o direito de receber qualquer valor a título de aposentadoria.

553.

— Uma perguntinha, senhor Belzebu.

— Diga lá, reles mortal.

— Por que Deus o converteu nessa coisa que o senhor é?

— Vou lhe contar um segredinho: fui eu que converti Deus nessa coisa que ele é.

— Ah, vá se foder, senhor Belzebu. Sempre tentando me enganar, não é?

— E o que você esperava, idiota?

554.

Alguns choram disfarçamente, que chorar por ela não seria bem visto. De todos os homens e mulheres aqui presentes, uns mais e outros menos, todos tínhamos amado Doralice nas sombras, furtivos, em quartos de motel, atrás de alguma árvore, no banco traseiro de um carro e até em algum banheiro público. Ela encantava a todos com sua ternura e gentileza e até mesmo com essa aura de mistério que as mentiras possuem. Ali, no caixão, velada por todos e chorada unicamente por seu marido, ainda conservava a beleza e o doce sorriso. Como não iria morrer em paz?

555.

O telefone tocou, a água do café ferveu na chaleira, o ferro de passar quase queimou a camisa, a banheira transbordou, o carro já estava ligado na garagem, a torradeira queimou as torradas. Ele só queria dormir um pouquinho mais, mas hoje a casa e a vida decidiram levantar-se mais cedo.

556.

Mentem os mapas, os espelhos, os aplausos, os discursos, os poemas, os despertadores, a previsão do tempo, os que odeiam, os que amam, os que bajulam, os que criticam, as fotografias, os presentes. Mentem as promessas, os que prometem, os que se ausentam, os advogados, os namorados, os médicos, os abraços, os músicos, os atores, os deuses. Mentem os piratas, que dizem que procuram um mapa.

557.

Um ermitão vivia no alto de uma montanha. Todas as manhãs, quando saía de sua cabana com os olhos ainda cheios de sono, acontecia: a pedra estava lá, e o tropeção era inevitável. Xingando de dor, ele a jogava ladeira abaixo. No vale, vendo-a descer, Sísifo a maldizia e recomeçava o trabalho.

558.

Ganhou dinheiro suficiente para derrubar uma parede da sala e instalar ali uma elegante lareira de estilo inglês, na frente da qual lê clássicos da literatura que o aborrecem, fuma charutos que lhe provocam tosse e escreve cartas de amor que não atirará ao fogo que não existe, porque em sua cidade nunca faz tanto frio que justifique derrubar uma parede para instalar uma lareira e, na frente dela, ler, fumar e escrever.

559.

Saíram do escritório Boaventura & Villas-Boas Advogados dispostos a colocarem um ponto final em sua vida em comum. Celebraram a decisão com vinho branco:

— Brindemos pelo início da guerra e pelo fim da nossa dignidade.

560.

Quando a vi pela primeira vez tive certeza: ela seria minha. Olhei-a por horas e por fim me decidi. Entrei na loja e anunciei: Quero a manequim da vitrine.

 




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