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23 de junho de 2016

Contos Mínimos # 561 a 570

mulher2561.

Quando era uma menina, Alice acordava à noite apavorada com a ideia de encontrar um monstro terrível e desconhecido debaixo de sua cama. Hoje, já casada, ela sabe que o pior pesadelo é acordar todos os dias ao lado do mesmo velho conhecido entre os lençóis.

562.

Ele tinha levado uma vida cheia de dores, de muito trabalho e pouco divertimento. No leito de morte, seu rosto refletia todas essas amarguras e, principalmente, um enorme cansaço. Pediu lápis e papel e escreveu sua última mensagem: “Por favor, não me ressuscitem!”.

563.

Ele a ama, mas não sabe. Ela também o ama, e tampouco percebe. Entre cafés e pão com margarina, falam do dia a dia, do tempo e das compras do supermercado no dia seguinte. Até que se olham fundo nos olhos e se calam, noite a noite.

564.

Meu pai chegou da rua irritado e de mau humor. Ordenou silêncio a todos na casa. Fui para meu quarto e comecei a jogar no vídeo. Com o barulho, meu pai apareceu na porta, enfurecido:

— Você não sabe o que é silêncio, seu moleque?

— Sei. É o que existe entre você e eu.

565.

Encontrou na mesa da cozinha o bilhete de despedida que ele escreveu, o covarde. Depois de ler, pensou em chorar. Chorar pra quê? Por um casamento que estava morto há anos? O único valor dele foi ter a coragem de pôr um ponto final em tudo, pensou. Mesmo assim, as lágrimas logo começaram a correr em seu rosto, e eram de raiva de si mesma. Ela tinha passado quinze anos dizendo que ele era um covardão, e agora comprovou que estava errada.

566.

Sou verbívoro. Minha dieta é à base de palavras.

567.

Eu e minha mulher procuramos ensinar os melhores valores a nossos filhos, e pretendemos fazer o mesmo com os netos. Ensinamos, por exemplo, que o amor é um sentimento sublime e não tem preço. Entretanto, nunca me esquecerei do quanto me custou encontrar a esposa perfeita. Foram dois ingressos de cinema e as pipocas correspondentes, mais um jantar num restaurante fino, com o adicional da gorjeta para o violinista, para que tocasse nossa música favorita. No total, calculo uns quinhentos reais.

568.

Em volta da mesa, cientistas do mundo inteiro observavam com entusiasmo e incredulidade a sua última descoberta:

— Como não percebemos isso antes? — indagou um deles.

— É inacreditável! Sempre o tivemos diante dos olhos, mas só agora descobrimos as maravilhas que ele pode proporcionar a quem tiver coragem de usá-lo — retrucou um outro, certo de que estava diante da oitava maravilha do mundo.

— “Universo portátil”, esse deve ser o seu novo nome. Vamos patentear imediatamente — decretou um terceiro.

— Você acredita que é necessário trocar de nome?

— Lógico! O mundo tem que conhecer os segredos que existem aí dentro, e me parece que a palavra “livro” está muito fora de moda…

569.

Ele ofereceu amorosamente seu coração a ela, que aceitou com grande alegria. Agora só faltam mais dois doadores para que ela seja promovida a Chefe de Seção na Ala dos Transplantes.

570.

Nos primeiros dias Deus criou a Terra, a luz e os dados. A Terra estava vazia e os dados vagavam por lá, desordenados, perdidos entre as florestas espessas e a fúria dos oceanos. Deus percebeu que não era bom que os dados ficassem assim tão soltos e então criou o homem para comandá-los e impor-lhes regras. Para auxiliá-lo nessa tarefa, Deus criou os computadores, os vírus, os discos rígidos, os megabytes e os gigabytes, a internet e as redes sociais, os spam e os spammers. E os cookies. E viu que tudo era bom e que o homem fizera um excelente trabalho. No sétimo dia, Deus criou o whatsapp e descansou.

 




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