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4 de julho de 2016

Contos Mínimos # 571 a 580

casa abandonada2571.

Não havia criança que não inventasse uma história fantasiosa sobre a casa abandonada no alto da colina. Isso durou gerações. Em nossa mente infantil, imaginávamos que era o castelo de uma bruxa que comia criancinhas, ou a casa de um cientista louco que se transformava em gorila nas noites de lua cheia. Quando foi derrubada, todos os habitantes da cidade correram até lá para resgatar dos escombros um pedaço de sua imaginação.

572.

Comentei:

— Seus olhos me encantam. São lindos.

E ela:

— Você gosta deles com ou sem maquiagem?

Respondi sem pestanejar:

— Gosto deles grandes, expressivos.

Ela, também sem pestanejar, tirou-os do rosto e os colocou na palma de minha mão. Depois foi para o quarto, tateando as paredes.

573.

Como acontece todas as manhãs, demoro um pouquinho pra despertar totalmente depois que me levanto da cama, inclusive pra reconhecer meu próprio rosto no espelho. Hoje estou mais pálido que de costume, mas nada pra me preocupar. O que faz essa gente toda chorando ao redor de mim?

574.

Meu irmão Jorginho caiu no poço quando tinha cinco anos. Foi uma tragédia, nunca superada por nossa família. Depois disso ninguém ousou se aproximar do local. Vinte anos depois, quando fui tirar água do mesmo poço, aconteceu um fato extraordinário. Ao puxar o balde com a corda, veio dentro uma garrafa com uma mensagem que dizia: Este mundo é igualzinho ao que existe aí em cima.

575.

A quem interessar possa: fornecemos equipe de pastores treinados para conduzir cidadãos para locais previamente estabelecidos. Também disponibilizamos o serviço de experientes domadores, indicado para os casos de teimosia persistente. Temos preços especiais para datas durante o período eleitoral.

576.

Ele está a ponto de atingir a excelência da literatura breve. Em seu último microconto, que tinha apenas uma linha, conseguiu prescindir do verbo, do advérbio, dos adjetivos e dos pronomes pessoais. Ainda restou uma conjunção, que logo será eliminada, afinal, quem é que precisa de conjunções? Ele só fez questão de preservar as reticências, com as quais espera manter o leitor em suspense até o final…

577.

Desculpe-me, meu amigo, mas ouvi dizer que você leu o meu livro. É verdade? Se sim, por favor, preciso de uma prova. Poderia me dar uma declaração por escrito? Pode ser aqui mesmo, neste guardanapo. Sabe como é, se eu não tiver uma prova, não vão acreditar que alguém leu meu livro.

578.

Na porta da igreja, depois da cerimônia, a mãe da noiva contemplava emocionada o casal:

— Olhe só para eles, parecem dois passarinhos!

Não pude deixar de pensar nas rolinhas, pássaros doces e frágeis que, quando em cativeiro, são capazes de matar-se mutuamente a bicadas.

579.

Pontualmente, às 23h59 de todas as noites, em todas as cidades do mundo, um homem esmurra sua esposa, que dá um tapa no filho, que chuta o cachorro, que morde um gato, que persegue um rato, que agarra uma barata, que tenta comer um verme que devorará um homem.

580.

As crianças saem da escola quando já é noite. Isso é muito perigoso nos dias de hoje. Resolvemos, os pais, formar um grupo pra buscar todas elas de uma só vez. Na volta, cada criança fica em sua casa, com toda a segurança. Comemos com tranquilidade, conversamos um pouco e logo vamos dormir. Como as crianças são quase todas iguais, nunca percebi que a cada noite eu trazia uma diferente pra casa.

 




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