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10 de agosto de 2016

Contos Mínimos # 591 a 600

beijo2591.

Como se de uma praga se tratasse, todos começaram a se beijar. Na rua, no metrô, nas praças e parques, nos becos, na porta dos prédios, nos pontos de ônibus. Beijos inocentes, cordiais, de língua, obscenos, carinhosos, violentos, ternos. As pessoas se beijavam porque sim e por que não? Beijos de todas as cores, raças e gêneros. Beijos com diferença de idade, nos lábios, nas bochechas, na testa, na mão. Beijos, beijos, uma euforia de ósculos por toda a cidade. Até que alguém rompeu a magia ao dar o beijo de Judas.

592.

Desistiu de escrever a carta justificando seu suicídio. Achou que bastava guardar no bolso da calça as outras três: a de demissão, a de despejo e a que sua mulher lhe escreveu pedindo o divórcio.

593.

O sol fustiga impiedosamente a porta de madeira, buscando sombra.

594.

Sou professor. Há quinze anos leciono na Escola de Ensino Fundmental Santa Helena. Ensinei para muitas crianças durante esse tempo. Acho que sou um bom professor. Eu acreditava nisso, até que chegou em minha sala o Michelzinho Vargas. Não prestava atenção à aula, não aprendia nada, estava sempre distraído, não dava a menor importância ao que eu ensinava, não desgrudava do celular. E não adiantava mandá-lo à diretoria ou aplicar-lhe algum castigo leve: nada surtia efeito para adequar seu comportamento. De vez em quando olhava pra mim, insolente, e sorria, desafiador. As demais crianças começaram a imitá-lo e em pouco tempo dar aula tornou-se tarefa quase impossível. Perdi a autoridade, o sono, o apetite, a vontade. Tinha calafrios e febre e suava em todo início de aula. Houve uma manhã em que não aguentei: puxei Michelzinho Vargas pela orelha, levei-o até o pátio e, diante dos demais alunos, pendurei o pirralho num dos galhos do ipê. Pelo pescoço. Para que todos aprendessem a lição de uma vez por todas.

595.

Se alguém perguntasse, Sueli não saberia dizer por que aceitou sair com aquele sujeito. Era feio, deselegante, aborrecido, desinteressante, rude. Beberam cerveja entre silêncios embaraçosos. Ela não via a hora de ir pra casa e se livrar de pessoa tão sem atrativos. No final da noite, com o nível de álcool nas alturas, ele a impediu de dirigir e chamou gentilmente um táxi pra ela. Sueli soube, naquele instante, que aquele sujeito seria o pai de seus filhos.

596.

A morte não descansa. A morte não para quieta. A morte não dorme. A morte nunca se distrai. A morte é dissimulada e se enfia no meio de nós, alimenta-se de nossa seiva e nem percebemos. A morte se diverte com a nossa miséria. Ela é uma puta mal educada, que aparece mesmo quando é nosso aniversário.

597.

No meio das cruzes mortas do cemitério, as flores nascem e vivem.

598.

Não, mil vezes não, minha prezada senhora. A senhora não é a mulher que mais convém a seu marido. Carece de imaginação, repete o palavreado que aprendeu com seus avós, a única coisa que sabe fazer é variar de supermercado e telenovelas, fica à espera dele sempre com creme no rosto e bobes no cabelo e tem a cota semanal determinada para fazer amor. Definitivamente não, a senhora não é mulher capaz de compartilhar seu marido como eu faço com a própria senhora. Por isso repito: a senhora não é a mulher que mais convém a seu marido.

599.

Na aula de educação artística, Marcelinho costuma sempre desenhar seu pai com o punho fechado e sua mãe com óculos escuros.

600.

Eu te encontrei como se encontra tudo: quando se está em busca de outra coisa.

 




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