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16 de setembro de 2016

Contos Mínimos # 611 a 620

tesoura

611.

Então, só pra exercitar, vamos supor o reverso da história: se ele, talvez, hipoteticamente falando, tivesse aparecido na porta de casa com um ramo de flores, poderia me dar um beijo, me convidar a um restaurante chique e falar que me amava. Antes de sairmos, eu poderia, fazendo uma grande gentileza, pegar a tesoura na gaveta da cozinha para cortar um pequeno fio solto do paletó, senhor delegado, em vez de enfiar as duas pontas na garganta dele quando me disse, sem beijo, sem flores e sem nenhuma consideração que estava me dando o fora.

612.

Que perigo eu corri ontem! Tentei me suicidar e quase me matei.

613.

Ela não falava: abria a boca e de lá saíam palavras com cheiro e gosto de vinagre, que a tudo ao redor azedava. Nossos diálogos eram assim: sílaba por sílaba, a acidez que vinha dela penetrava meus ouvidos e inundava minha cabeça, confundindo meu cérebro e meu entendimento; dali saltavam para meu coração, importunando o que batia com tranquilidade e compasso certo. Quando sua língua parava, meu corpo tinha processado tanta química que eu poderia escrever uma nova tabela periódica de sensações e espantos. Tudo estava alterado em mim: meu estômago tremia, meus ouvidos tinham visões, minha boca sentia cheiros. No fim, eu só a olhava nos olhos e percebia que os meus choravam de tanto escutar.

614.

Não creio que possa pedir muito mais por uma quarta-feira, uma simples quarta-feira. Depois de largar o expediente de um trabalho que detesto, passei pelo zoológico para jogar amendoim para os macacos e dar um pouco de risada. Em seguida tomei cerveja com uns conhecidos num boteco do centro da cidade e, quando já era noite escura, me meti num cinema pra ver um filme do qual me esqueci cinco minutos depois. Voltei pra casa e percebi que minha mulher já tinha levado o resto de suas coisas. Acho que vou abrir uma garrafa de vinho, ligar a televisão pra ver coisa nenhuma e começar a fumar outra vez. Pra dormir tenho os comprimidos habituais. Amanhã vai ser um dia difícil, eu sei. Mas não tem nada a ver com hoje.

615.

Vou ser sincero, que não gosto de mentir: eu sinto muito por você sentir tão pouco.

616.

Nesta cidade ninguém acredita em milagres — assim Mas-Que-Nada do Norte recebia seus visitantes numa placa na entrada que dava acesso à rua principal. Nunca me esqueci dessa frase. Discordo dela, porque vivi uma sucessão de milagres desde que cheguei lá. Consegui que meu carro velho pegasse fogo, que minha mulher estivesse comigo reclamando da vida, que pegássemos a estrada errada e chegássemos a Mas-Que-Nada, que encontrássemos aquele riozinho fresco e simpático, que ela quisesse tomar banho, que caísse de repente um temporal, que a correnteza fosse forte, que não houvesse ninguém perto a quem pedir ajuda e que ela — que pena! — desaparecesse rio abaixo. É pouco?

617.

É uma questão de fé. Eu não sei, apenas suponho que alguém precise disso — digo a eles, enquanto assino o documento de autorização. Em todo caso, eles devem ser poucos, e estão nessa situação por seus próprios méritos. Eu nunca vi nenhum deles. Onde me criei eu nunca soube que eles existiam. Minha casa era tão grande que eu mal encontrava minha família, só mesmo na coincidência de uma refeição, e olhe lá. Eu fui estudar fora do país e, quando voltei, meu pai me colocou nessa área do governo que cuida dessas doações para projetos sociais. Isso porque me formei em Ciências Políticas, e ele achou que tinha tudo a ver. É uma coisa ridícula, porque as quantias doadas são tão pequenas, que me custa acreditar que alguém vá realmente precisar disso pra viver. Bem que o governo podia economizar esses valores pra fazer obras mais importantes. Bom, aqui estão as autorizações para a doação dos recursos. Como disse antes, eu apenas suponho que os pobres existam, mas eu não sei, nunca vi nenhum deles no clube.

618.

Quem vive lá não se cansa de contar: cheio de alegria, João escolheu o lugar mais visível da cidade para plantar. Foram nove, uma para cada filho que teve. Nove filhos homens, que abandonaram a casa para fugir da miséria. Agora são esses nove filhos de madeira que cuidam da velhice do pai. Os outros, os de carne e osso, nunca voltaram.

619.

Cresceram, se multiplicaram, destruíram o mundo.

620.

Naquela manhã ele despertou invisível, mas não se preocupou. Vestiu-se, tomou uma xícara de café e foi andando até o metrô, rumo ao trabalho. Passou o dia imerso em relatórios e planilhas. Voltou para casa no começo da noite. Na manhã seguinte despertou visível. Tudo correu exatamente igual.

 

 




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