Close

15 de dezembro de 2016

Contos Mínimos # 651 a 660

651.

Seu pai saiu para comprar cigarros e não voltou mais. Seu marido saiu para comprar cigarros e não voltou mais. Seu filho saiu para comprar cigarros; quando voltou, quem não estava mais era sua mãe.

652.

“Ei, ei, espere aí, aonde vai a minha princesinha?”, disse aquela voz familiar que, saindo da penumbra, tentava impedir que a pequena Lizete fugisse do quarto.

653.

Eu vou te devorar, disse o tigre.

Azar o teu, respondeu a espada.

654.

O abutre continua voando em círculos sobre o moribundo deitado na areia, enquanto o sol lustra os próprios raios para o golpe de misericórdia. Quando tudo parecia caminhar para o fim e sair vivo daquela situação não era mais que uma miragem, o escritor permitiu que seu herói se recuperasse e sobrevivesse. O animal carniceiro e o sol, de má vontade, foram buscar outra vítima.

655.

Hoje meu cachorro atingiu a maioridade. Roubou meus chinelos e os calçou nas patas dianteiras, como se fosse o dono da casa. Tirou o jornal do meu colo e o abriu na página de esportes, demonstrando grande interesse pelas fotografias. Logo sentou-se em minha poltrona de couro e fixou seus olhos em mim, como a dizer que já era hora do almoço e algo tinha que ser feito. Acendeu um cigarro e encheu o ambiente de fumaça. Achei isso o cúmulo da impertinência e o mandei para a varanda, não sem antes lhe dar uma bronca e decretar, de uma vez por todas, que dentro de casa não se fuma. Que insolente!

656.

A culpa e o segredo são amigos e se adoram. O segredo, porque com a culpa se faz mais forte. E a culpa, porque, em segredo, desaparece.

657.

As autoridades responsáveis pelas questões ambientais declararam: “Vamos construir aqui um belíssimo parque ecológico, coisa de primeiro mundo, para o desfrute de toda a população. Para isso teremos que derrubar esses 200 hectares de floresta. Será um espetáculo!”

658.

Naquela noite percebeu que tinha bebido demais e, como é muito responsável e consciente, resolveu voltar para casa de táxi. Ficou surpreso ao constatar que chegara são e salvo, ainda mais considerando que nunca tinha dirigido um. Agora ele está com o táxi parado na frente de sua casa, incapaz de se lembrar de onde o pegou.

659.

Quando morrer irei para o céu ou para o inferno? Essa questão agora já não me preocupa mais. Estou convencido de que consegui reunir todos os requisitos necessários para me converter num fantasma e permanecer vagando por este mundo.

660.

Numa tarde de verão soltei a imaginação e a deixei voar livremente. Agora, três meses depois, ainda estou esperando pelo regresso dela.

 




Tags:,

15 de dezembro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos Minímos contos, mínimos

               
              
            
                

Deixe um comentário