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17 de janeiro de 2017

Contos Mínimos # 661 a 670

661.

Caminhando pelo parque, no meio da grama vi nascendo, de maneira heroica, uma palavra. Para cuidar dela, arranquei-a do chão e a levei para minha casa. Coloquei-a num vaso com água para que crescesse e chegasse a ser uma frase, um conto, uma novela, um romance — quem sabe?

662.

Se escutam, se falam, se elogiam e se sorriem.

Se criticam, se falam, se elogiam e se sorriem.

Se criticam, se odeiam, se elogiam e se sorriem.

Se criticam, se odeiam, se respondem e se sorriem.

Se criticam, se odeiam, se respondem e se…

663.

Como todas as noite, cobrem-na com uma toalha de linho, colocam os pratos e talheres, sentam-se em volta dela e permitem que a pobre mesa adote esse ar digno e familiar, representando seu papel com uma convicção que não teria se soubesse que eles apenas fingem comer, que até o arroz, o feijão e a salada não passam de desculpa esfarrapada e vagabunda para o que denominam convívio.

664.

Desde menina ela sabia que, quando o líquido estranho saía de seus olhos, devia cobrir o rosto com as mãos e correr para se esconder. Foi só aos vinte anos que se atreveu a provar o gosto. Vinte anos chorando chá verde sem saber! Agora, quando a cascata começa a descer, ela imediatamente pega uma xícara e um pouco de açúcar. Os dias não estão para desperdício.

665.

Uma porta se fecha com estrondo. É a porta da sua casa, e não é você quem a fecha. Você está sentado no sofá, estátua, e só olha quando ela se fecha. Seu corpo estremece com o barulho. E não é necessário dizer mais nada.

666.

Tudo é vaidade. A vaidade é a mãe dos pecados originais. A esposa virtuosa e fiel, o filho obediente, o esposo dedicado cometem o pecado da vaidade ao dizerem Eu não sou como a mulher adúltera, Eu não sou como o filho ingrato, Eu não sou como o marido relaxado. Tudo é vaidade. A vaidade é a mãe dos pecados originais.

667.

Hoje em dia não consertamos mais nada, nem coisas, nem relacionamentos. Nós os trocamos: as coisas e os relacionamentos.

668.

Quando não há mais que um para escolher, criticamos a falta de variedade mas rapidamente nos conformamos com essa situação. Se encontramos um leque grande de opções, também criticamos porque não sabemos qual escolher. No fim, depois de muitas comparações, optamos por um deles mas, por hábito, criticamos dizendo não foi a melhor escolha.

669.

Hoje fui ao trabalho disfarçado de vendedor de frutas: um sorriso de melancia, dois olhos de jabuticaba e um paletó feito com folha de bananeira eram a minha fantasia. Ontem eu era domador de leões. Já fui trabalhar vestido de garçom, de cantor de churrascaria e de zumbi. Antes de passar pela porta da empresa sempre olho em algum espelho e penso, sorrindo, no ridículo que pareço e no que as pessoas pensarão de mim, mas não me importo. Arrancar uma gargalhada das crianças internadas nesse hospital é a profissão mais bonita do mundo.

670.

Uma das razões (há muitas, e todas muito importantes) do cuidado que se deve ter ao escrever algo na internet é que as cretinices se eternizam. Algumas minhas, e não devem ser poucos, estão por aí.

 




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