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23 de fevereiro de 2017

Contos Mínimos # 681 a 690

681.

Ele estava passando o inferno com a crise de abstinência. A tentação era forte e ele tinha que ter muita força de vontade para não entrar na estação de trens. Esperá-los, em pé na plataforma, era o seu vício.

682.

Há dias em que o mais aconselhável a fazer é ver, ouvir e calar.

683.

Entrei em casa e ela me recebeu como sempre, com carinho, pronta para me lembrar o que falta em minha vida. Assim era ela. Assim era a solidão.

684.

A luxúria vai desaparecendo com o tempo. As evidências não enganam: beijar o cônjuge na testa e dizer boa noite é só o começo do fim.

685.

Bastou uma chamada no celular para que minha mãe se esquecesse do meu patinho de borracha, meu cabelo cheio de xampu e a torneira aberta. Isso já faz muito tempo. Sozinho na banheira que transbordava, brinquei de navio e lutei contra piratas que queriam roubar meus tesouros. Fiz vários aniversários, passei a frequentar a escola e até comecei a namorar a Maria Julieta, do primeiro ano B. Quando minha mãe voltou, me senti o menino mais infeliz do mundo. Ela tinha as mãos viscosas, parecendo escamas de peixe, e algas que saltavam de seus olhos. Me embrulhou numa toalha seca e começou a contar histórias de marinheiros musculosos.

686.

Era uma vez um começo que lutava contra o seu próprio final.

687.

Quando finalmente encontrei a saída, já era tarde demais. Tinha me apaixonado pelo labirinto.

688.

Operaram o meu avô. Tiraram a cabeça do fêmur, que tinha se quebrado, e no lugar colocaram um pino de prata. Meu pai guardou o osso, como lembrança. Tempos depois, minha mãe o jogou fora, porque começou a cheirar mal. Quando meu avô morrer, quero herdar o seu pino de prata.

689.

Acabo de receber um telefonema com a informação de que ganhei um grande prêmio literário. A voz feminina do outro lado da linha me deu a impressão de que estava feliz por ter sido a portadora de tão boa notícia. Um instante depois liguei para meus amigos para compartilhar com eles essa alegria. Todos eles responderam com efusivos parabéns e votos de sucesso. Fiquei muito satisfeito com as manifestações de afeto, mas prometi a mim mesmo que, de agora em diante, me limitaria a chamá-los para compartilhar minhas desgraças, que é a única forma que se pode brindar o próximo com a verdadeira felicidade.

690.

— Você vive no passado.

— Sim, eu sei. É mais seguro. Sei que no passado tudo já aconteceu.

 




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