Close

8 de março de 2017

Contos Mínimos # 691 a 700

691.

No dia em que reprisaram Casablanca, no velho cinema do meu bairro, ventava tanto que o chapéu de Humphrey Bogart voou para fora da tela e foi parar na fila M, justo em cima dos meus joelhos. Quando terminou o filme, o céu tinha ficado cinza. Começou a chover e, por alguma janela, entrava o som de um piano. Uma garota me pediu fogo; eu não fumava, mas fui tomado por uma vontade louca de acender um cigarro e chamá-la de pequena. Ou honey. Depois da primeira tragada, ela desapareceu num Austin branco conversível. Fiz sinal para um táxi e disse: Rápido, siga aquele carro!, mas desgraçadamente o motorista o perdeu de vista. Sem outro remédio, fui para casa e lá me esperava uma mulher vestida de negro, sentada no sofá. Tirei o chapéu e o pus sobre a mesa. Quando ia beijá-la, ela me disse: Vai, troque de roupa senão chegaremos tarde ao jantar. E tudo voltou a ter a aborrecida e tediosa cor da vida real.

692.

Você mente com tanta doçura, meu amor, que fico desarmado. Minhas broncas tornam-se despropositadas e sem nenhuma razão. Seu poder de convencimento é tão grande, tão bonito… Claro que eu a ajudo a fazer a mala sem reclamar. Também estou tão triste quanto você: a pobre tia Amélia, quem diria, morreu de novo, e é a terceira vez este ano, sempre num fim de semana. E você, coitadinha, tem que usar aquele vestido preto outra vez. Aquele que eu comprei e lhe dei de presente, aquele bem decotado e ajustado no quadril. Sim, meu amor, eu sei, é melhor que você vá sozinha, para que sofrer os dois, não é mesmo? Faça boa viagem e dê meu abraço a todo o pessoal de lá.

693.

“Peguem a fila, como todo mundo”, nos disse um senhor gordo de gravata, voz de tabaco e caspa no cabelo. Vim com minha esposa, que estava grávida, as pernas inchadas e um grande desconforto nos quadris. Ela não conseguiria ficar tanto tempo em pé, por isso pedi que voltasse para casa e me esperasse lá. Eu permaneci na fila, que avançava lentamente. Quando deu à luz, ela me avisou pelo celular, mas eu não fui ao hospital, não queria perder meu lugar depois de tanto tempo. Com o bebê no colo — é um menino e se chama Leonardo —, ela me visita todas as tardes para me trazer um lanche e assim eu vejo meu filho. Em maio próximo ele fará a primeira comunhão. Eu continuo na fila. Logo chegará a minha vez, ainda que, depois desse tempo todo, eu não me recorde do motivo que me trouxe aqui.

694.

Ele esboça um sorriso banguela, que disfarça tapando a boca com a mão esquerda. Tinha que ser com a esquerda, porque na direita lhe faltava um dedo. É por esse motivo que está sempre com a mão direita no bolso da calça. Tenta esconder de todos tudo o que a vida lhe arrancou, e não foi pouca coisa. A ferida de uma bala perdida lhe gangrenou a perna esquerda, que teve que ser amputada. Um pontapé dado por um desafeto lhe fez perder o rim direito. Todas essas cicatrizes estão estampadas no mapa de sua vida, por isso tapa a boca para sorrir e continua entregando seu coração como se ele nunca tivesse sido arrancado.

695.

Quando a luz voltou, nossa família tinha aumentado. O novo membro ganhou o nome de Parísio e já sabe o alfabeto de cor. Descobrimos, com grande surpresa, que as gêmeas são, na verdade, gêmeos, e que Penélope, a mais velha, tinha acabado de se casar com o entregador de leite, um moleque muito trabalhador e ajuizado que vivia há três anos num canto empoeirado do sótão. Com a luz em pleno funcionamento, aproveitamos para tirar fotografias e registrar tão importante momento. Aproveitando a ocasião, apalpamos o rosto um do outro para confirmar que éramos da mesma família. Em seguida vestimos nossa roupa de domingo para finalmente enterrar o vovô, que já estava cheirando mal.

696.

Há silêncios sepulcrais, silêncios forçados, silêncios gritantes, silêncios interrompidos.

Há silêncios musicais, teatrais, literários, cinematográficos.

Há silêncios sórdidos, dissimulados, complacentes, traidores.

Há o silêncio do rancoroso, do corrupto, do amante, do mafioso, do ladrão.

Há silêncio na noite, na tranquilidade, na paisagem, na paz, na contemplação.

Da mente, da velhice, da solidão, da vontade, da morte.

Silêncio se pede, se exige, se faz.

Silêncio, catedral.

Silêncio, biblioteca.

Silêncio, hospital.

Silêncio total.

697.

Foi num funeral, há muito tempo. Um parente distante, ao ver o caixão no centro da sala, exclamou, em lágrimas copiosas e mãos na cabeça: Mas como foi acontecer isso? De imediato o caixão se abriu e o morto, ele próprio, explicou ao familiar como ocorreu o acidente, com abundância de detalhes.

698.

Aquele que não se atreve a ser inteligente torna-se político.

699.

Quando o amor ruma para o final, o dia rouba as palavras, os sonhos se corrompem e os corpos se distanciam e evitam se tocar. Quando o amor ruma para o final, a paciência se impacienta, faz frio no verão e a noite desce, inevitável, cada vez mais tarde. E nunca, nunca amanhece mais cedo.

700.

Não parou de chover esses dias. O pássaro verde me olha. Nos olhamos. Eu também preciso voar.

 




Tags:

8 de março de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos Minímos contos mínimos

               
              
            
                

Deixe um comentário