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7 de maio de 2017

Contos Mínimos # 711 a 720

711.

Aos 78 anos, a veterana exploradora espanhola Ana d’Ávila viu, maravilhada, a realização do sonho que acalentava desde menina: encontrou na beira do mar uma garrafa com uma mensagem dentro. Talvez esta seja minha última aventura. Salvar uma pessoa perdida em alguma ilha deserta deste mundo. Certa de que havia ali, naquela garrafa, a possibilidade de uma viagem extraordinária, Ana tirou de dentro o papel e leu: Venha me buscar. Esteja onde estiver, e seja você quem for, vou gostar de conhecê-lo. Pergunte por mim em Cádiz. Tenho onze anos. Meu nome é Ana d’Ávila.

712.

Suicidou-se enquanto seu irmão dormia. Não suportou mais a dependência familiar. Desde então, o outro arrasta pela vida o cadáver de seu gêmeo siamês.

713.

O crime perfeito — disse numa entrevista o escritor de novelas policiais — é aquele em que não há a quem perseguir e em que o culpado fica sem castigo. É, sem dúvida nenhuma, o suicídio.

714.

Todas as manhãs chego ao escritório, cumprimento os colegas, ligo o computador, leio os e-mails, tomo café e, antes de iniciar as tarefas diárias, acrescento uma linha na longa carta em que, há oito anos, explico minuciosamente as razões do meu suicídio.

715.

Eu te matei tantas vezes que já não me lembro mais de como foi a primeira. Era um trabalho árduo ser sempre novidadeiro, não repetir, inovar sempre. E tu, viciada em morte e em novidades, sempre pedias mais. Voltavas à vida só pelo prazer de morrer de novo, pelo prazer de que eu te matasse uma vez mais. Mas agora entrego os pontos: rendo-me, meu repertório se acabou, não sei mais o que inventar, minha imaginação virou fumaça. Caberá a ele, ao outro, a tarefa de matar-te. Sei que ele vai repetir cada uma das mortes que te infligi, e sei também que isso já não te importa mais — a esta altura, a novidade não está na morte em si, mas no assassino.

716.

Sob o clarão da lua, diante dos ouvidos atentos e dos olhares curiosos dos pequeninos do bosque, a voz cavernosa do velho lobo começa a narrar uma nova fábula: Era uma vez uma menina muito malcriada, muito desobediente, que usava um capuz vermelho encardido…

717.

Os aeroportos são locais peculiares, onde os encontros mais inusitados e inesperados podem ocorrer. Por exemplo, o do psicanalista com a ex-paciente, que adora falar sobre a estupidez inata de Freud; o do torturador com a filha de uma de suas vítimas e, principalmente, o da mulher divorciada com o ex-marido e a nova esposa. Não se sabe se combinaram o encontro e se vão juntos a algum lugar. O fato é que sorriem e apertam-se as mãos. Conversam com tom de voz afável. O assassinato pode esperar.

718.

Ele estava sozinho na sala, ensimesmado. De frente para a janela, pensava em todos os momentos que havia passado com sua esposa. As pequenas discussões e as grandes também, o namoro, o noivado, a viagem de núpcias, os seis meses de casamento, os momentos em que ela se agitava no quarto, vociferando que um marido é para, entre outras coisas, ser um homem na cama, os dois filhos, a sua morte. Essa última recordação foi mais forte. Os olhos dele se iluminaram. Levantou-se num repente, foi até o jardim, pegou uma pá e, com cuidado, desenterrou a cabeça da defunta. Deu-lhe duas bofetadas bem dadas e voltou a enterrá-la. Agora está de novo sozinho na sala, ensimesmado, de frente para a janela.

719.

Tinha lutado durante toda a noite. Sua cabeça era um mapa ensanguentado de feridas, igual a seu corpo. Sentia sede, fome, cansaço. Com cuidado e sorrateiramente, deslizou por uma janela aberta e entrou na casa. Procurou por comida ou um pouco de leite. Alguém acendeu a luz. Uma mulher o acariciou. Ele miou.

720.

— Vocês formam um belo casal. Podem me dizer como se conheceram?

— Não. Nunca nos conhecemos.

 




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