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14 de junho de 2017

Contos Mínimos # 731 a 740

731.

Salvou-o a intuição. Depois do último beijo, correu para cuspir o veneno.

732.

As paredes do apartamento de Janete parecem feitas de papel. São sutis, diáfanas, comunicantes. Ela não sabe onde termina seu quarto e onde começa a sala do apartamento pegado ao seu. Quando ouve o despertador do vizinho, ela se levanta. Quando o filho dele chora, ela corre para dar-lhe a chupeta. Quando ele discute com sua esposa, Janete se encolhe na cama e chora. Quando percebe que ele tem frio, liga de imediato o aquecedor. Quando ele tosse, ela toma xarope amargo. Quando ele se despe cantarolando, ela liga o chuveiro. Quando ele faz amor com sua mulher, Janete fica grávida.

733.

Ninguém sabe dizer como cheguei até aqui sozinho. Eu tampouco sei. E ela, quando me sentei no banco da praça com a pistola no colo, não estava, tenho certeza de que não estava, caso contrário teria ouvido seu choro agudo e persistente. Na realidade, nem sei dizer em que momento ela começou a chorar. Mas isso não me importa. As pessoas passam apressadas por nossa frente, algumas param e olham para mim, olham para ela e balançam a cabeça. Murmuram coisas que não entendo, mas sinto o tom de recriminação. Depois apertam os lábios, como para que não se lhes escape a vida, e seguem andando. Devem ter coisas a fazer, não vão perder tempo comigo, uma pessoa que nem conhecem. Eu olho para o lado e vejo que ela continua ali, insistente, com aquele choro que não cessa. A vida, ah, a puta vida! Acendo meu último cigarro e o apago em seguida ao sentir os olhares de reprovação dos passantes, como agulhas nos meus olhos. Que coisa irritante! Assim não há quem aguente. Mas já tomei minha decisão: amanhã vou me suicidar em outra praça.

734.

Não falo tua língua, me disseste na tua. Não tem problema, só tens que sentir, respondi com a minha.

735.

Faz frio e chove muito. Olho para o céu com os olhos fechados e aperto os braços em volta do corpo para me aquecer. Brinco com os pingos da chuva que despencam sobre meu rosto. Abro a boca. Sinto como a água desliza pelo meu queixo e isso provoca em mim uma vontade incontrolável de rir. Algumas gotas, atrevidas, penetram minha garganta. Quando crescer vou chamar isso de orgasmo.

736.

Dancei até que caí, esgotado. Antes que o moleque percebesse, tirei a chave das minhas costas e a escondi.

737.

A vida passa por momentos tristes, azedos, alegres, melancólicos, sentimentais, divertidos, tranquilos, turbulentos, nostálgicos, ébrios (e não necessariamente devidos ao álcool), duros, suaves, difíceis, terríveis, felizes. Não sabemos como os fenômenos paranormais conspiram contra nós nem como. Nosso pranto, gargalhada, tremor, taquicardia, recordações, calma, diversão ou melancolia se sincronizam com o de outra pessoa entre os sete bilhões de seres viventes que atualmente perambulam dentro desta gravidade. Surpreendentemente, falo de um instante.

738.

Os dois policiais, o porteiro do prédio, o síndico, os vizinhos curiosos e o carteiro que passa por ali diariamente — todos contemplavam a cena sem acreditar no que viam. No fundo do apartamento estava uma mesa repleta de recordações: um telefone preto de discar, fotografias antigas, uma torneira de latão, um monóculo, uma rosa murcha, cartões postais de países distantes, discos de vinil, um gravador de rolo, uma espingarda enferrujada, uma boneca de pano, um trenzinho elétrico… Objetos de um passado que não soube envelhecer, igual ao apartamento como um todo, que mais parecia o cenário de um filme mudo onde só cabem os pretos e os brancos. Do senhor Amadeu não sobrou nem rastro, só o seu gato miando triste à procura do dono.

739.

Casaram-se. Viverão felizes para sempre ou viverão infelizes para sempre? Deus lança no ar uma moeda.

740.

— Para ver o gelo?

— É, mas isso foi há muito tempo. Agora em Macondo todos têm uma geladeira em casa.

 




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