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27 de junho de 2017

Contos Mínimos # 741 a 750

741.

No mesmo instante em que ela entrou eu saía, e nos roçamos levemente. Agora entramos e saímos sem parar.

742.

Nas manhãs em que não chove, as ruas se enchem de suicidas. Eles sobem nos mais altos edifícios da cidade e saltam no vazio, em conjunto, demonstrando uma invejável capacidade de coordenação. Morrem no ato, deixando no asfalto uma mistura de tripas, ossos e sangue. Nas manhãs chuvosas, ao contrário, apenas dois ou três se arriscam, titubeantes, a abraçar o espaço. Demoram uma eternidade até tocarem o chão e, quando lá chegam, se limitam a levantar, sacudir as gotas d’água da roupa e sair caminhando. A esses, como vocês já devem ter concluído, não mais prestamos atenção.

743.

Todas as noites é a mesma história. O marido chega do trabalho e vai até a cozinha, agarra a esposa pelos cabelos e a joga no chão. Com a faca de cortar carne apunhala seu peito uma e outra vez até, exausto e suado, desabar a lado dela. Minutos depois, como se nada tivesse acontecido, a esposa se levanta, ajeita o vestido e limpa as manchas de sangue do piso. Limpa com esmero, não fique — isso não! — nenhum vestígio. As crianças não têm por que se inteirar disso.

744.

A cada vez que espirra saem-lhe pela boca um monte de palavras. Ele as recolhe como pode, com a preguiça característica de sempre. “Me desculpe, me desculpe”, ele diz, atrapalhado. E começa a engoli-las em silêncio, olhando para longe.

745.

Justo quando tinha decidido ser radicalmente moderno, cometeu essa bobagem tão antiga que é morrer.

746.

— Por que tenho que ir ao colégio, papai?

— Porque tudo o que você não aprender um dia será usado contra você.

747.

— Você, meu irmão, que nunca me engana, diga: estou vivo ou morto?

— Morto, irmãozinho, morto. Os vivos nunca perguntamos isso.

748.

Saímos juntos no último sábado. Ela me disse que era virgem. Fomos a um motel. No momento de gozar, ela juntou as mãos como se estivesse rezando, se elevou e desapareceu.

749.

Somos muito disciplinados, eu e minha irmã Vivi. Antes que o papai volte com os jornais e os churros que sempre compra no quiosque da esquina, nós já teremos terminado de pôr a mesa, limpado os dentes e vestido a roupa de domingo. Vivi estará sorridente porque já terá colado grau na Faculdade de Direito quando papai retorne com o jornal e os churros; as gêmeas já estarão noivando com Edu e Manu e a morte de Fernando terá cumprido duas primaveras. Mamãe agora trabalha no supermercado, de onde só volta depois das dez. E o tio Miguel já dorme em casa todas as noites, mas vai embora de madrugada, antes que o papai volte com os jornais e os churros.

750.

Em pleno campo de batalha, no meio da fumaça e do cheiro de pólvora, o valente soldado vê aterrorizado a granada que caiu a poucos metros do capitão, sem que ele percebesse. Rápido, lança-se sobre ela e recebe no corpo o efeito inteiro da explosão. Foi assim que o soldado salvou a vida de seu superior e perdeu a sua. Um herói. Depois do estrondo, o capitão se virou e olhou com tristeza o corpo despedaçado do subalterno. Disse para si mesmo: Soldado distraído, não estava alerta como deveria, senão teria visto a granada e agora não estaria morto como um idiota.

 




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