Close

29 de julho de 2017

Contos Mínimos # 751 a 760

751.

Antes que o bebê chegasse, ele era puro encantamento. Tinha lido, junto com a esposa, tudo o que dizia respeito ao parto, aos cuidados necessários com o recém-nascido, ao primeiro banho etc. Queria ser um pai e um marido dedicado, responsável, companheiro. Isso durou até a primeira vez em que viu todo o cocô que aquele pequeno ser era capaz de produzir. Dobrou a fralda com nojo e, tentando parecer natural, gritou à esposa “me lembrei agora, preciso ir até lá embaixo, precisa de alguma coisa, querida? Tem que limpar a criança, viu? Tchau.”.

752.

Era uma festa muito animada, cheia de casais elegantes. Falavam todos ao mesmo tempo, contavam piadas, casos de viagens, comentavam sobre política e economia. Num daqueles intervalos que ocasionalmente ocorrem quando precisam pensar no próximo assunto a ser abordado, o dono da casa, um senhor entrado em idades, de óculos grossos e bigode fino, que até então pouco tinha aberto a boca, afirmou alegremente: “Acabo de fazer vasectomia”. O silêncio desceu cortante sobre todos os presentes. Minutos mais tarde, um a um os casais foram discretamente se retirando da casa.

753.

Saímos juntos no último sábado. Ela me disse que era virgem. Fomos a um motel. No momento de gozar, ela juntou as mãos como se estivesse rezando, se elevou e desapareceu.

754.

Todas as tardes víamos o homem solitário sentado no banco da praça central da cidade, tendo entre as mãos um livro muito velho. Era uma imagem bonita, mas triste: distante de tudo, imerso em pensamentos sombrios ou lembranças que lhe imprimiam mágoa ao rosto, o homem passava horas sem que ninguém lhe desse atenção ou palavra. Era para ele uma necessidade diária acariciar a capa, a lombada e as páginas gastas do volume que tinha nas mãos. Seus dedos trêmulos e amarelados pelo tempo viravam as folhas como se fosse uma cerimônia: devagar, gestos acautelados, imensa delicadeza. Fazia isso com concentração, como se no lugar do livro apalpasse joias preciosas e quisesse escondê-las da cobiça dos transeuntes. Nós o olhávamos sem pena, mas com tristeza, intrigados e curiosos pelo interesse e cuidado com que manipulava o objeto que tinha sobre as pernas. Às vezes percebíamos um leve e misterioso sorriso em seus lábios. O sorriso inconfundível dos cegos.

755.

Eu pensei que ontem era hoje e, por causa disso, tudo o que eu deveria viver vivi por antecipação. O chato disso tudo é que hoje não tenho nada por que viver.

756.

Naquele domingo havia tantas crianças no parque que Marlene voltou para casa, no final da tarde, com uma que não era a sua. O menino que ela levou tinha cinco anos e trazia numa das mãos um saquinho de pipoca e na outra um pai. Entre banho, preparação de papinha e pôr para dormir, Marlene percebeu que já era tarde demais: criou apego e carinho pelo guri. Além disso, ele dormia mais rápido que o seu filho. Não bastasse, o pai que veio junto cozinhava, sabia arrumar a cama com o maior capricho e ainda fazia massagem nos pés de Marlene, o que aliviava bastante a sua dor de cabeça crônica. Ela fechava os olhos e até gemia Ui, que essas mãos são tão grandes! Nesses instantes de quase êxtase, ela nem se incomodava com as reclamações da vizinha antipática do terceiro andar, que não se cansava de praguejar contra os barulhos noturnos vindos do apartamento de Marlene. A situação foi perfeita desde o início, já que nem o pai e nem o menino pareciam ter notado a troca de mamãe, e a mamãe estava perfeitamente adaptada ao seu novo filhinho. Tudo natural, espontâneo e muito, muito prazeroso para todas as partes. Tão prazerozo que, quando um dia Marlene fez menção de devolvê-los ao parque, ouviu protestos do pai e o menino fez birra e não quis comer. Nem nesse dia nem nos seguintes, e assim o tempo passou e tudo permaneceu em harmonia. Isso já faz quinze anos.

757.

Tudo começou quando ele colocou a tabuleta na porta do quarto, do lado de fora: “Não entrar”.

758.

Walter era segurança da boate O Paraíso e tinha fama de bom profissional. O dono da boate concorrente, chamada O Inferno, contratou os serviços dele. Walter pôde comprovar que, ainda que a decoração do local tivesse mudado, os clientes das duas baladas eram muito semelhantes. Às vezes, até os mesmos.

759.

Não me negue seus beijos nem me quebre os ossos. Se vai me matar, faça!, mas sob nenhum pretexto demore mais que o necessário.

760.

Quando os viu, o menino caiu na gargalhada. Isso deixou os fantasmas em pânico. Eles estavam habituados a ouvir gritos, e não souberam o que fazer diante daquela risada.

 




Tags:

29 de julho de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Minímos contos mínimos

               
              
            
                

Deixe um comentário