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25 de agosto de 2017

Contos Mínimos # 771 a 780

771.

O fotógrafo se pergunta como a vida real pode ser vista tal como é. Tira várias fotos, ajusta o enquadramento, controla as lentes e os filtros de brilho e luz, busca o ângulo perfeito. Não gosta do resultado, não está satisfeito. Percebe, depois de muito tentar, qual é o problema. Arranca os olhos do rosto e, finalmente, vê.

772.

Quando as cortinas arderam, ela se sentou para contemplar o fogo. No momento em que as chamas alcançaram o mobiliário de madeira, ela exultou e aplaudiu com entusiasmo. O incêndio atingiu o teto e ela esfregou as mãos com satisfação, pensando em como a vizinha antipática do andar de cima iria se virar. Depois tossiu muito, os pulmões em brasa. Os bombeiros derrubaram a porta de entrada a pontapés. Disposta a resistir, ela se amarrou à poltrona com o cinto do roupão que usava desde manhã. Seus filhos decidiram colocá-la num sanatório. Desde então foi proibida de brincar com fósforos ou velas perfumadas, mas, sempre que não há ninguém por perto, ela acaricia com os dedos chamuscados os extintores de incêndio pendurados nos quatro cantos do quarto em que a confinaram.

773.

Sentia tanta pena pela dor alheia que se fez enfermeira. Trinta anos depois como profissional da saúde, mantém intactas sua vocação e o sorriso no rosto enquanto aplica mais uma injeção libertadora.

774.

Custou-lhe subir até o topo, mas valeu a pena quando viu que, do outro lado, tudo era muito pior.

775.

Quando se viu subitamente sem ideia nenhuma, filiou-se a um partido político.

776.

Chegou à cidade com uma pequena maleta, um pequeno chapéu, um pequeno sonho e uma pequena pistola carregada; esta última lhe deu a chance de mudar o adjetivo de todas as suas posses.

777.

Na entrada da estação do metrô, com seu violão, sua fome e sua raiva, predipôs-se a aquecer o mundo, mas só conseguiu congelar o seu chapéu vazio ao lado de seus pés.

778.

No guarda-roupa, minhas camisas reconquistaram o espaço que lhes tinha sido roubado. O mesmo aconteceu com as gavetas, que agora só contêm minhas meias e cuecas. Nas prateleiras da geladeira, tudo é uma festa de latas de cerveja e comida com muita gordura. Uma ou outra fruta, sim, mas isso é só para disfarçar. Minhas mãos se mantêm ocupadas em afazeres para os quais eu não dava a menor importância antes: organizar, desorganizar, arrumar e desarrumar, morrer um pouco a cada dia. De todas as maneiras, tento esquecer que você um dia existiu aqui neste ambiente que agora parece uma imensidão. Entretanto, continuo vendo a marca de seu rosto na almofada do sofá e me pergunto quando deixarei de escutar sua voz.

779.

O casal trabalhou a vida toda com números e operações exatas. Sua melhor soma, primeiramente, deu três como resultado. Depois quatro, cinco. Decidiram encerrar os cálculos em seis, mas vieram gêmeos. O sete, então, passou a ser o melhor resultado, o número perfeito.

780.

Na quinta disse que não haveria aumento de impostos: os correligionários aplaudiram.

Na sexta aumentou os impostos: os correligionários aplaudiram.

 




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25 de agosto de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Minímos contos mínimos

               
              
            
                

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