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6 de setembro de 2017

Contos Mínimos # 781 a 790

781.

Os anjos e os arcanjos agitaram suas asas e a superfície da Terra começou a tremer, liberando para o ar espessas nuvens de poeira. Uma descomunal tempestade estava prestes a desabar de um céu carregado de nuvens negras. Quando o piloto conseguiu decolar o avião antitormenta, tudo era escuridão. A luz da aeronave foi o sinal para a torre de comando, que mandou a seguinte mensagem pelo rádio: “Apocalipse abortado. Câmbio”.

782.

Nos orfanatos os bebês não choram. Eles logo percebem que as lágrimas não servem para ganhar atenção. É por isso que sempre há absoluto silêncio no berçário. O surpreendente é que, quando alguém aparece para buscar um deles, o rosto pequeno se ilumina. Ninguém sabe como eles aprenderam a sorrir.

783.

Na porta da igreja há dois mendigos. Os fiéis nunca dão esmola para aquele que pede com as mãos em concha. Preferem jogar as moedas para o outro, que tem uma lata de querosene vazia para receber os donativos. Aquela gente caridosa quer ter a certeza de que o som de sua generosidade chegue até Deus. Esquecem-se de que o Diabo também escuta o tilintar da hipocrisia.

784.

Chegou ao poder com descomunal apetite. Abocanhou tudo o que pôde. Comeu o mundo. Alimentou-se do desalento alheio, da miséria alheia. No fim, falhou o órgão vital: seu coração morreu de inanição.

785.

Meteu uma banana de dinamite dentro de um livro e acendeu o pavio. Depois da explosão, as letras caíram umas sobre as outras e novas palavras foram formadas. Ele sabia que daria certo e que a inspiração voltaria. Na marra, por bem ou por mal.

786.

Eu nunca demonstrei que sabia. Era melhor seguir vivendo juntos, brigar um pouquinho por qualquer besteira, ir ao cinema aos domingos, jantar com amigos e pronto. É do meu temperamento: eu preciso de um pouco de rotina pra me sentir seguro. De vez em quando minha mulher saía com as amigas e voltava tarde, algo triste e de olhos baixos. Eu procurava animá-la, fazia café e contava uma piada. Ela apenas sorria e acariciava meu cabelo. Uma noite eu a ouvi chorar no banheiro. Nos dias seguintes ficou com ar ausente e quase nunca prestava atenção às coisas que eu lhe contava. Até que tudo recuperou a normalidade. Ela nunca mais voltou para casa com aquele enervante cheiro de loção após a barba no pescoço e, daquele homem, não restou nem poeira. Fora o nosso filho Gabriel, que veio para alegrar nossa vida e é um doce de garoto.

787.

Neste mundo há três tipos de pessoas: as que acreditam que as portas estão aí para serem abertas; as que têm certeza de que as portas existem para serem fechadas. E aquelas que não sabem o que fazer com as portas.

788.

Destruí a marretadas o cimento que prometi assentar amanhã sobre o terreno irregular que havia na outra margem do rio que me viu brincar com outros meninos que destruíram o cimento que prometi assentar um dia sobre o terreno irregular que herdei neste lado do rio que me viu chorar com outros adultos que destruíram o único cimento que assentei em toda a minha vida.

789.

Tinha encontrado um lugar quente e escuro, perfeito para passar a noite. Justo quando pensou que tudo ia adquirindo sua normalidade, Gregor Samsa voltou a se transformar em homem.

790.

A mãe tinha dois filhos gêmeos, idênticos. Ela os vestia com roupas iguais e lhes preparava rigorosamente a mesma porção de alimento no almoço e no jantar, que eles comiam ao mesmo tempo e com o mesmo apetite. Comportavam-se como se um fosse o espelho do outro e pareciam ter uma única personalidade. Gostavam, às vezes, de se divertir com a confusão que sua semelhança provocava; as pessoas, não raro, falavam com um pensando ser o outro. Os dois tiravam sempre a mesma nota no colégio, esfolavam o joelho da mesma maneira — no mesmo dia e no mesmo horário —, gostavam da mesma menina, falavam as mesmas frases ao mesmo tempo. Todas as noites a mãe os arrumava para dormir, com pijamas idênticos, e colocava cada um sob cobertores de mesma cor. Assim que apagava a luz, ela se aproximava silenciosamente de um deles, sempre o mesmo, e sussurrava em seu ouvido: “Você é o meu preferido”.

 




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