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26 de setembro de 2017

Contos Mínimos # 791 a 800

791.

Todos pensaram que o velho Matias deixou de se sentar em seu banco preferido do parque porque estava sujo. Só as pombas que vivem por lá sabem que o banco estava sujo porque o velho Matias deixou de se sentar nele.

792.

Quando soube que Caim tinha assassinado seu irmão, Deus ficou de tal maneira furioso que decidiu expulsá-lo da face da Terra. Como não tinha para onde mandar o criminoso, ordenou que ele ficasse no Paraíso. Afinal, o Paraíso estava vazio desde que os pais de Caim foram banidos de lá.

793.

Aprendeu na internet os passos infalíveis para deixar de fumar. Queria fazer tudo sob a correta circunstância e por isso seguiu religiosamente as instruções daquele livro online. Para criar a atmosfera perfeita, imaginou uma grande nuvem em que coubessem toda a fumaça que já saiu de seus pulmões, as lágrimas que, escondido, deixou rolar sobre as bochechas, os momentos de conversas e risadas com os amigos, o último cigarro compartilhado na cama, a longa tragada de antes, a de depois… Quando conseguiu condensar tudo isso na nuvem que tinha criado, transformou-a num balão e o soltou pela janela. Viu quando ele ganhou o espaço e sumiu de vista. Agora só lhe resta matar sua mulher, comer seus filhos e destruir, a pontapés, a tela do computador em que piscava o tal livro.

794.

Estou aqui pensando: o que nossas coisas fazem quando não estamos olhando para elas?

795.

“Sinto que o fio que nos une se rompeu”, disse ela. “Finalmente vou deixar de ser sua marionete”, pensou ele.

796.

As tribos existentes nos quatro cantos se reuniram para decidir onde devia ser a capital do planeta. A assembleia, convertida desde o início numa imensa Babel, expôs o que não era surpresa para ninguém: a falta de entendimento entre os participantes. Cada tribo marcou um pedaço de terreno ao redor de si e se declarou independente. Fim da utopia.

797.

O caixão pensava consigo: “Não é fácil ser ataúde. Quem nos faz não nos quer, quem nos compra não nos usa e quem nos usa nunca nos vê!”

798.

Acocorado no telhado, eu o observo pela lente de longo alcance do meu rifle. As palavras dele ainda ressoam em minha cabeça. Ele declarou: “Sinto muito dizer isso, mas você é um covarde. O que lhe falta é determinação”. Coloco o dedo no gatilho e, como cada dia, duvido durante inacabáveis segundos. Talvez amanhã.

799.

De mim, só o que resta é minha sombra no fundo daquela fotografia em que o protagonista é outro.

800.

As horas estão mortas. Que triste é o enterro dos minutos e segundos secos! O tempo perdido está desconsolado, a Primavera que ficou para trás lamenta o efêmero de sua existência, a Hégira veste-se de luto fechado e a velhice colhe margaridas nos jardins solitários das cidades. Mas os beijos não dados, ai! Esses, à beira da loucura, choram sem consolo.

 




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26 de setembro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Minímos contos mínimos

               
              
            
                

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