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23 de outubro de 2017

Contos Mínimos # 811 a 820

811.

O mau cheiro que subia dos bueiros estava cada dia mais insuportável. Os habitantes da cidade especulavam sobre que animal poderia estar se decompondo galerias abaixo, produzindo aquele odor pestilento. Ninguém poderia supor — mas era de se esperar — que, desde que a prefeitura decidiu comercializar a água milagrosa que brotava generosamente da serra, o fedor do dinheiro sujo tinha que sair por algum lado.

812.

“Minha mãe e o lenhador foram amantes e eu descobri tudo”, admitiu Chapeuzinho Vermelho. “Para disfarçar, inventaram aquela história do lobo mau, e eu acabei virando uma bocó naquela história”.

813.

O verão acabou e os últimos turistas se preparavam para voltar para casa. Fizeram as malas, carregaram os carros e se despediram de nós. Nos abraçamos e eles seguiram viagem. Acenamos até que os perdemos de vista. Em seguida, tiramos nossas ridículas camisas havaianas, recolhemos as conchas e os caranguejos soltos pelo chão, desmontamos os castelos de areia, desinflamos as palmeiras decorativas, enrolamos o chão de areia de praia como se fosse um tapete, tapamos o mar com uma lona, apagamos o sol e penduramos a placa de “fechado” na entrada do bairro. Às férias, finalmente. As nossas.

814.

No dia em que ele morreu, todos foram ao cemitério, menos ela. Minha avó preferiu ficar em casa. Trancou-se na biblioteca e passou dias lendo os livros dele. Enquanto todos nós nos despedíamos de seu corpo, ela se reencontrava com a alma do meu avô.

815.

A invasão do planeta por extraterrestres era iminente. Meses atrás, depois de acaloradas discussões, chegamos a um acordo sobre o que fazer quando finalmente acontecesse. A espera, uma mescla de medo e tensão, foi interminável e estirou os nervos de todos. Estávamos a ponto de explodir. Por isso, até hoje nos custa muito assimilar que, na data prevista, eles passaram ao largo de nós.

816.

Aquele homem público tinha tanto medo de falar em particular que passou a só dar palestras e conferências.

817.

Naquela manhã o inseto despertou transformado em homem. Na frente do espelho, o que ele viu o enojou. Sentiu um asco infinito, uma insuportável náusea, uma repugnância que desconhecia limites. Teve saudade do tempo em que era apenas uma barata, mesmo conhecendo do que os humanos eram capazes de fazer com as baratas. Resignado com a condição em que ora se encontrava, apertou o nó da gravata e ganhou a rua. Misturou-se à multidão de humanos e baratas, arrastando tripas e misérias pelas calçadas, disposto a pisar e a ser pisado.

818.

Como faz todos os dias, Gabriel passeia pela cidade e a enorme fila na porta da nova loja chama sua atenção. “Realizamos sonhos – mesmo os impossíveis” diz o letreiro do lado de fora, e cada um espera com paciência a sua vez de ser atendido. A propaganda surtiu efeito entre aquela gente, mesmo que o preço seja alto e o contrato de compra tenha a cláusula de fidelidade. O Diabo acena de lá de dentro para o anjo que, perplexo, o observa do lado de fora da vitrine.

819.

Eles passaram tantos anos fazendo companhia um ao outro que, quando a senhora Alzira dorme no sofá, o homem que vive atrás da tela sorri com ternura, diz “boa noite, amor” e desliga a televisão.

820.

Depois de confessar, envergonhado, seus erros em rede nacional de televisão, recebeu inúmeros telefonemas indignados, acusando-o de mentir.

 




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23 de outubro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Minímos contos mínimos

               
              
            
                

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