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5 de janeiro de 2018

Contos Mínimos # 841 a 850

841.

Ele estancou na beira do futuro. Estava temeroso de avançar, mas mais amedrontado ainda com a ideia de retroceder sobre seus passos. Ficou no presente, reduzido ao espaço em que só cabiam ele, a cadeira e a corda.

842.

Os passos que não dá por medo do julgamento alheio são os que deixam marcas mais visíveis em seu caminho.

843.

Ontem pela manhã, quando regressou de uma viagem para ver a família, Janete encontrou a tampa da privada abaixada. Era a terceira vez que acontecia, e sempre depois que se ausentava. Na primeira, Janete pensou que, afinal, depois de quinze anos de casamento, Paulo tinha resolvido fazer um agrado a ela. Apenas sorriu e não fez comentário.  Na segunda, ia perguntar, mas algo a distraiu e o assunto foi esquecido. Ontem não esqueceu. Assim que saiu do banho, soltou “Querido, alguém veio aqui em casa enquanto estive fora?” Desde o dormitório o marido respondeu com um eloquente silêncio.

844.

— Papai, onde mora o Diabo? — perguntei, a cinquenta centímetros do chão, olhando para cima. Os olhos de meu pai, se bem me lembro, eram azuis, mas não tenho certeza, pois já se passaram muitos anos desde que o olhei pela última vez.

— No País da Maldade, filho. Ele mora no País da Maldade.

— E alguém consegue morar lá? — perguntei, sem entender.

— Ele sim — respondeu meu pai.

845.

Acho que ultimamente o sexo anda supervalorizado. Está caríssimo.

846.

O que será das cadeiras, poltronas e banquinhos quando o último cu desaparecer da face da Terra?

847.

A notícia de que dois pistoleiros cegos tinham se desafiado até a morte esvaziou as ruas da cidade. Ninguém se atrevia a pôr os pés fora de casa. Não havia uma alma à vista, nem sequer atrás das janelas. Mas, se necessário fosse, muita gente teria pagado ingresso para ver de perto o que, sem dúvida, tinha mais jeito de espetáculo de circo do que de mero ajuste de contas entre dois desafetos. Todo mundo estava curioso, mas nenhuma pessoa tinha coragem de assistir de perto. Ainda que ninguém admitisse publicamente, a possibilidade de que o enfrentamento acabasse com um só tiro era muito remota. Daí o interesse — e o medo — do povo.

848.

Quando saí do cinema, o mendigo que toda noite está sentado no degrau de entrada se aproximou. Não pediu dinheiro para alimentar a família nem que lhe comprasse comida ou lhe desse um simples cigarro. Só perguntou que filme acabei de ver. Eu respondi. Ele pensou um pouco, olhou para cima e em seguida para mim: “Não, esse ainda eu não conheço. O senhor se importa de me contar a história?”.

849.

No começo, trocaram mil palavras de amor. Compartilharam versos preferidos, declamaram um para o outro trechos inteiros dos romances de que mais gostavam. Depois veio uma guerra dialética disfarçada de rotina. No final, teve lugar a traição. Ela emudeceu, ele usou frases feitas. Não havia mais nada a dizer.

850.

— Senhor, por favor, desligue o celular. Vamos decolar em poucos minutos.

I’m sorry, I don´t speak Portuguese.

Your mobile phone must be switched off, please.

— Não é preciso, senhorita, eu já coloquei o aparelho em modo avião.

— O senhor não disse que não falava português?

What?

 




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5 de janeiro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Minímos contos mínimos

               
              
            
                

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