Close

29 de janeiro de 2018

Contos Mínimos # 851 a 860

851.

No primeiro dia Deus disse: “Faça-se a luz!”. No mesmo instante, sob o olhar assombrado do Criador, nasceu Monet.

852.

Eu gosto de todas as tuas horas, mas prefiro quando o relógio marca 7h10. É quando tu abres os olhos e me miras como se o mundo estivesse começando naquele instante.

853.

— Criei uma pessoa! — vibrou o doutor Frankenstein, eufórico. Ele estava brincando de ser Deus e tinha conseguido. A alegria durou só até a manhã seguinte, quando chegaram os jornais. Lá estava a opinião dos críticos: “A peça está muito mal acabada e cheia de defeitos de fabricação. De longe dá pra ver as costuras na pele”.

854.

Daniela não lia livros, mas analisava rostos e via neles as mais incríveis histórias de amor, os mais grandiosos relatos de medo e os sucessos mais extraordinários jamais contados. Por isso, e não por vaidade, usava tanta maquiagem: queria oferecer as melhores páginas de sua vida a quem, como ela, tinha o dom de ler rostos.

855.

Quando volta para casa depois de um dia puxado de trabalho, o que ele mais quer é silêncio, e por isso sua mulher desliga a televisão assim que o vê chegar. Seus dois filhos o abraçam rindo em voz baixa. Na hora do jantar, na cozinha da casa do ferreiro só se escuta o ruído surdo das colheres de pau contra os pratos de louça.

856.

O homem cego tem medo da morte. Não da morte em si, mas do momento de enfrentar a famosa luz. Ele nunca viu a luz, não sabe que aspecto tem, mas pode imaginar. E é disso que ele tem medo: uma vez inundado pela luz, como saber que direção tomar?

857.

O ditador acreditava que era eterno, até que uma noite escutou, com angústia crescente, a aproximação da massa que iria pôr fim a seu delírio.

858.

Houve um homem que amava tanto sua mulher que, quando ela morreu, ordenou que fosse cremada e pôs suas cinzas num relógio de areia. Perguntado sobre o porquê dessa loucura, respondeu: “Quero continuar passando as horas com ela”.

859.

— Eu te odeio — disse ela.

— Eu também te quero — disse ele.

— Eu disse que te odeio — reagiu ela.

— Eu ouvi — retrucou ele, encerrando o assunto.

860.

Os carpinteiros do vilarejo de Santa Helena constroem, todos os anos, no inverno, pequenos pássaros de madeira que, depois de pintados com cores variadas, são postos nos galhos secos das árvores. Quando a primavera se aproxima, fazem com todas as aves uma grande fogueira na praça central. Dizem os moradores que só então se ouve o canto delas saindo de entre as chamas.

 




Tags:

29 de janeiro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Minímos contos mínimos

               
              
            
                

Deixe um comentário