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9 de fevereiro de 2018

Contos Mínimos # 861 a 870

861.

Soltou o cabelo, tirou os óculos e estalou os dedos para que a música começasse. O saxofone soou com melancolia e ela começou a se despir. Já tinha feito isso várias vezes na frente do espelho, então não teve dificuldade nem vergonha. Não tirava os olhos do velho de óculos escuros sentado na plateia, imóvel. Quando completamente nua, e a música quase no fim, emitiu gemidos baixinhos, a boca aberta, para dar mais autenticidade a seu número de orgasmo fingido. O velho, o rei dos clubes de striptease, não se mexeu e continuou bem morto, como sempre esteve. Uma voz ao microfone, vinda da cabine técnica, agradeceu à candidata e disse que em breve entraria em contato. Próxima, gritou a voz.

862.

Fiz um buraco na terra e enterrei ali o meu segredo. Quando finalmente encontrei alguém digno de conhecê-lo, fui buscá-lo, mas não estava mais lá.

863.

A televisão fala comigo. Comigo e com ninguém mais. Os programas de auditório, as novelas, as séries americanas e inglesas, os jornais falados e as notícias dos jornais falados (a política, os esportes, as guerras, os refugiados e as pessoas morrendo de fome): tudo é feito pensando em mim. Os anúncios de carros que jamais comprarei e a divulgação das estatísticas de audiência também são feitos pra mim. Pra me confundir.

864.

O mágico termina seu número fazendo com que o coelho volte para dentro da cartola. Segundos depois, o público de Miami Beach aplaude entusiasmado. No mesmo instante, o coelho sai de outra cartola. O público de Tóquio aplaude entusiasmado.

865.

Uma de cada vez se aproxima do guichê e anuncia seu nome: Leda, Clitemnestra, Penélope, Dafne, Dânae, Medeia, Ifigênia, Antígona, Europa… Estão envergonhadas dos trapos que vestem e do cabelo sujo. Tentam esconder os seios que insistem em pular fora da roupa. Escutamos seus relatos, vemos as faces maceradas e, em que pese nossa larga experiência, quase nos fazem chorar com o que contam: violação, abandono, rapto, estupro, exploração, humilhação. Percebem que as ouvimos com atenção e sentem-se, pela primeira vez, protagonistas. Cuidamos de lhes arranjar abrigo e um advogado, damos apoio psicológico às mais frágeis, convocamos uma manifestação de apoio e nos comprometemos a reescrever suas histórias o mais rápido possível. Os livros aguardam com impaciência.

866.

Cegos como borboletas noturnas, não paramos de nos chocar com o que acontece no mundo.

867.

A fome se alastrou pelo povoado e devorou tudo e todos, não sobraram sequer as boas ideias. Os que não sucumbiram por inanição nutriam-se de si mesmos: comiam pedaços de pele ao redor das unhas e as próprias unhas. Quando tempos melhores apareceram, já não sabiam como se alimentar. Uns morreram de indigestão, por ingerirem mais alimentos do que o estômago suportava; outros, porque se esqueceram de como se mastiga e engole. A maioria, porém, ficou paralisada, hipnotizada diante do prato de sopa, esperando que alguém lhes desse uma colher.

868.

Estava escrito que nosso caso de amor não iria durar muito tempo. Sei disso porque eu mesmo escrevi.

869.

Vamos brincar enquanto o Diabo não está.

— “Diabo, está aí?”, perguntamos todos, olhando ao redor.

870.

A inspiração chega e se senta ao meu lado. Cutuca minha costela e mostra o que traz debaixo do braço: uma garrafa de vinho e dois copos. Sorri e me serve dose bem maior que dois dedos. Ela me aponta a mulher sentada no último banco do balcão, sozinha e pensativa. Já reparou nela? Bonita, decote discreto mas insinuante. Tá solitária. Mexe a azeitona do dry Martini, mas ainda nem tocou na bebida. Respondo que não tirei os olhos dela desde que chegou. Bebo um gole grande. A inspiração enche meu copo novamente. Me sussurra palavras no ouvido. Antes mesmo que ela pronuncie, eu adivinho: Vá até lá, convide para sua casa. Depois te direi como você vai matá-la.

 




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