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10 de abril de 2018

Contos Mínimos # 871 a 880

871.

— Picasso, você tem certeza de que essa no retrato sou eu? — perguntou Dora Maar .

872.

Porque é tocando no fundo da ferida, ainda que isso cause amargura e infelicidade, que uma pessoa aprende a se conhecer. E, a partir daí, pisar firme no chão.

873.

É o demônio que dá corda aos despertadores. Quando tocam, nas primeiras horas da manhã, nosso primeiro pensamento é xingar e praguejar. Aqueles que se levantam com o som desses relógios são profundamente infelizes: saem de casa de cara amarrada, com uma nuvem negra sobre a cabeça, e passam o dia sem sorrir, acalentando os rancores e com a boca amarga. Em compensação, quem acorda com a carícia dos raios do sol é incapaz de cometer qualquer ato de maldade. Não existem despertadores no céu.

874.

O sucesso estrondoso de vendas da obra “Como ficar rico escrevendo livros de autoajuda” trouxe como consequência a derrocada da indústria editorial, já que o número de escritores começou a superar o de leitores.

875.

Fechadas as urnas, o partido que ganhou as eleições celebrou a vitória com uma grande festa cheia de álcool. Na manhã seguinte, com a ressaca, os eleitos tomaram posse sem se lembrar, ainda que remotamente, do que haviam feito — ou dito.

876.

O escritor não sabia mais o que escrever, o que pensar, o que fazer. Já tinha feito de tudo, inventado tudo. Frustrado por não mais conseguir contar histórias, doou o computador, os livros, as folhas em branco e os lápis e canetas. Quando lhe perguntaram a que se dedicaria de agora em diante, encolheu os ombros e respondeu que iria andar sem destino para acalmar a angústia. E foi. Não levou dinheiro, só uma muda de roupa. Visitou amigos, amigos de amigos, e andou, andou, andou. Não havia distância que o amedrontasse. Viu tudo o que sua vista alcançou. E compreendeu. Anos depois, ainda caminha. Não pensa em voltar. Não lhe faz falta voltar para viver de histórias inventadas.

877.

Hoje outra vez o tremor nas mãos, a angústia que lhe sobe à garganta e esse bar que não abre antes das nove!

878.

Despertou ao sentir o beijo e se levantou muito contrariada. Estava dormindo há cem anos e foi despertada na melhor parte do sonho…

879.

Nas lojas ching-ling não há, tampouco nas de um e noventa e nove. Nas barracas de camelô nunca ouviram falar. É uma coisa que não se encontra em lugar nenhum. Uns advertem que nem adianta procurar, isso não se fabrica mais e tornou-se uma raridade; outros, que ela pode aparecer de repente no mercado quando menos se espera. Outros dizem ainda que é uma questão de oportunidade: andando à toa pelas ruas, olhando distraidamente as lojas, pode ser que ela seja vista em alguma vitrine. Vivo me perguntando: será que ela existe mesmo? Ou será alguma invenção etérea, fruto da imaginação de alguém? Não sei. Peço que me avisem se a encontrarem. Sorte, amigos!

880.

Há uma fila interminável de pessoas em posição de sentido, olhando para a frente, como se fossem soldados sem uniforme ou armas. Estão de costas para a parede. Poderiam ser prisioneiros, ou retirantes, ou devedores de banco querendo quitar suas dívidas, ou pessoas que aguardam heroicamente em fila para ganhar um prato de comida. É estranho, todos têm o rosto impassível, o olhar parado, ninguém se move nem diz nada, nem sequer se queixam. Passaram muitas horas nessa posição e continuam aí, na frente do pelotão de fuzilamento.

(ilustração do texto: Retrato de Dora Maar, de Pablo Picasso, 1937)




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