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24 de abril de 2018

Contos Mínimos # 881 a 890

881.

Comia com avidez e gula os suculentos pratos que lhe ofereciam, até que o ronco de seu estômago o despertou debaixo da ponte.

882.

Graças à hipnose chegou a conhecer suas vidas anteriores em detalhes. Com muita paciência e como num filme, atravessou os séculos ao contrário, até conseguir se lembrar daquela incômoda folha de parreira e descobrir por que não suporta o cheiro nem o gosto de maçã.

883.

Outra vez o velho professor caminha entre as carteiras, sussurrando a cada aluno as respostas certas do vestibular. E assim acontece, ano após ano, desde o dia em que morreu.

884.

“Lembre o seu pai de sempre abaixar a tampa do vaso sanitário”. É o que me diz minha mãe, baixinho e ao pé do meu ouvido, sempre que vou visitá-la. Faria sentido se meu pai não tivesse morrido há mais de cinco anos. Eu respondo que sim, darei o recado, não se preocupasse com isso. Percebo que a idade de minha mãe, que avança, tem afetado sua memória de maneira inexorável. Quando me despeço, ela já se esqueceu do que tinha dito minutos antes e me adverte: “Não precisa dar o recado a seu pai. Veio me ver ontem e eu falei diretamente com ele. Assunto resolvido, filho”.

885.

Minha casa é segura, sinto-me protegido dentro dela. O vento não entra, nem a chuva. Mas um dia chegou alguém e abriu a porta e tudo mudou. Meus pés gelaram de imediato e pude ouvir com nitidez o ruído da água caindo e os gemidos do vento. Agora não quero que fechem a porta. Que fique aberta sempre. É dessa maneira que posso gozar o calor e o silêncio de minha casa: tendo consciência do vento e da chuva para além destas paredes.

886.

Os fantasmas existem. Convertem-se em ausências perpétuas, persistentes. Às vezes são eles que estão presentes e nós, mortais, meros espectros. Somos espectadores de uma função diacrônica, que acaba sendo sempre a mesma cena. Porque para os fantasmas o tempo é sempre este. E, para os que se creem ainda vivos, o tempo é sempre outro.

887.

No meu bairro, perto da rua onde moro, abriram um karaokê-harakiri. É como todos os outros karaokês, mas esse tem um diferencial: ali, cantar bem é uma questão de honra.

888.

Sentiu como se tivessem aberto a cortina do palco e todos esperassem que dissesse algo, mas, como de costume, não soube o que dizer. Por isso agradeceu quando alguém moveu os fios e pôs palavras em sua boca. Uma vez mais se conformou em ser uma marionete. Outro dia, se der, vai se comportar como ser humano.

889.

— Noé, não temos mais tempo, a chuva já começou. O que fazemos com as sereias?

890.

“Se você pensa em se matar, querido, use o veneno para ratos. Tá na despensa, na prateleira da direita. Não se esqueça de que acabamos de trocar o piso do apartamento inteiro”. Assim sua esposa tinha escrito naquele bilhete explicativo deixado na mesa da cozinha. Não o indignava tanto o par de chifres que levava na cabeça quanto a constatação de que a mulher o tratava como a um imbecil.

 




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