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17 de maio de 2018

Contos Mínimos # 891 a 900

891.

Allegro. Debruçado no teclado de teu peito, meus dedos trazem Johann para interpretar sua marcha triunfal entre buquês de flores de variadas espécies. Caladas as velhas teclas, a melodia ainda ressoa bem alto no auditório de teu ventre. Andante. Como se fosse ontem e não se cumprissem vinte anos justamente hoje! Acaso teu corpo não segue palpitando, tenso e ruborizado sob a carícia de minhas mãos? Adagio. Instante dos movimentos lentos, preparatórios para o final, que há de ser memorável. Apoteose. Coral e orquestra unidos no tutti aguardado em todo concerto. Como se realmente não houvesse amanhã, como se o amanhã fosse ontem. Aplausos!

892.

Enquanto os velhos dormem, as dentaduras postiças deles coincidem no mesmo copo d’água. Já tinham se visto, décadas atrás, e trocado sorrisos e alguma frase carinhosa, mas nunca estiveram tão próximos. Agora, em silêncio, se beijam pela primeira vez. Sem língua.

893.

Nós, os eleitores, solicitamos a todos os candidatos à Presidência da República que passem primeiro por um detector de valores. Estamos até o pescoço de gente que conta mentiras sobre suas posses à Receita Federal.

894.

Reginaldo percorre calmamente os quinhentos metros que separam sua casa da banca de jornais mais próxima. Compra a edição do dia e volta pelo mesmo caminho, lendo as manchetes. Sempre encontra a mesma notícia na primeira página: “Homem morre atropelado ao atravessar a rua lendo jornal”.

895.

Um louco tem uma mancha roxa na testa desde que nasceu. Fica bem no alto da cabeça, no exato ponto em que os cabelos começam. Ele não sabe, mas leva inscrita no crânio, numa língua já extinta, a fórmula da felicidade. Com vergonha dessa tatuagem involutária, usa sempre uma bandana, como se fosse um jogador de tênis. Não a tira nunca, mesmo estando sozinho em casa. Os vizinhos, sem saber do significado, fazem piada a cada vez que o veem perambular pelo quarteirão. Sendo louco, ele consegue se manter alheio às chacotas e segue vivendo em seu mundo particular. A fórmula surte efeito: ele vive sorrindo e em plena felicidade.

896.

A sorte sempre foi sua companheira, por isso toda gente estranhou quando perdeu o emprego no banco e só conseguiu outro cavando valas. Dois dias depois encontrou o tesouro.

897.

Em um futuro próximo trabalharemos também enquanto dormimos. Vamos apenas apoiar a cabeça num travesseiro e ele se encarregará de realizar as conexões necessárias. Enquanto estivermos mergulhados naquele estado onírico do inconsciente, todas as atividades que nosso cérebro registre serão transmitidas por uma rede wireless gigantesca, convertendo-se de imediato em energia. Devemos ir para a cama às 22 horas e não sair dela antes das seis da manhã. Teremos direito a duas noites de insônia por mês.

898.

A mim parecia que a frase podia render mais, ser algo mais profundo. Por isso preferi terminá-la com reticências…

899.

Atirei o calendário no fogo. Mas o tempo continua me consumindo.

900.

Foi encontrado à deriva, no meio do oceano. O transatlântico interrompeu o curso para resgatá-lo. A bordo, o capitão George o recebeu com um largo sorriso: “O senhor teve muita sorte, cavalheiro. Seja bem-vindo ao Titanic.”

 




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