Close

31 de maio de 2018

Contos Mínimos # 901 a 910

901.

A mulher está inquieta, parece muito nervosa. Olha para os lados como se procurasse algo ou alguém. Segura um bebê nos braços, enrolado num cobertor puído. Vê-la na plataforma do metrô é muito perturbador. Não carrega mala ou sacola e a roupa que veste está esgarçada. Ouve-se o barulho do trem que se aproxima da estação e ela avança até a beirada com passos lentos, mas decididos, como se procurasse um lugar melhor para fazer o que se intui inevitável. O bebê rompe sua ação com um choro premonitório. A mulher olha fixamente para os trilhos. O apito do trem adquire um som muito familiar, que me retira bruscamente da cena e me devolve ao bip bip do telefone celular sobre o criado-mudo, no exato instante em que eu tentava ter um pesadelo.

902.

Dormiu e sonhou que podia voar. Acordou na manhã seguinte convencido disso. Tomou rapidamente o café e correu para a varanda do apartamento. Experimentou três sentimentos: decepção, medo e liberdade. Decepção por constatar que não podia voar; medo porque percebeu que a morte o esperava no asfalto, que a cada segundo se aproximava mais; finalmente, liberdade porque já não teria que se preocupar com as contas a pagar nem com a ordem de despejo. Livre, por fim livre!

903.

Depois de procurar muito e quase desistir, encontrou a peça maravilhosa. “É essa!”, disse para si mesmo. Preparou a arma com paciência sem tirar os olhos dela. A gazela, certa de seu destino, sentou-se mansamente na linha de tiro e o encarou. O homem, decepcionado, abaixou a arma sem disparar e seguiu caminho. Recomeçou a busca por uma presa que merecesse esse nome.

904.

Há, neste mundo de meu Deus, pessoas imprudentes que praticam o texto oral sem proteção.

905.

Depois de abrir o sarcófago com todo o cuidado do mundo, os arqueólogos ficaram petrificados ao descobrir que a múmia de Cleópatra tinha um Visa Platinum numa das mãos.

906.

— Prove estas bananas que comprei.

— Estão com gosto de morango.

— Exatamente! Foram modificadas geneticamente. Não é genial?

— É genial, sim, mas eu prefiro banana com gosto de banana.

— Sem problema. Então prove esta maçã.

907.

Ela se aproxima dele no balcão do bar.

— Você quer dormir comigo?

Ele não responde de imediato. Balança seu copo, meio cheio de algo transparente, sem gelo. Responde sem olhar para ela:

— Não perca seu tempo com um sujeito como eu. Você pode conseguir alguém melhor.

Ela dá uma longa tragada no cigarro:

— É, eu sei.

908.

Quem escuta a chuva como quem ouve chover não está escutando a chuva.

909.

Nas manhãs em que não chove saímos para passear arrastando as correntes. Rompemos o amanhecer com nossos passos cansados e vamos até o rio para nos lavar. Na volta, ajustamos os ferros de maneira que ninguém se machuque e cada um pega a sua enxada. Durante várias horas, sem parar, sob o olhar atento dele, cortamos o capim, aramos o terreno, afofamos a terra para o plantio. Em seguida comemos rapidamente e logo voltamos ao trabalho, até o anoitecer. Nos barracões, antes de dormir, rezamos em conjunto e depois, silenciosamente, cada um faz a sua oração individual. Eu peço para que o céu amanheça limpo na manhã seguinte e não caia uma só gota de chuva, pois só assim poderemos ir novamente até o rio. Quando nós aprendermos a segurar a respiração por cinco minutos, nadaremos até a outra margem. Ele, que não tira o olho de cima de nós, terá que decidir se descarrega sua arma em nossas cabeças ou se vem conosco.

910.

O presidente estava seguro de sua decisão. Entre conceder o perdão a um condenado à morte ou permitir que a execução seguisse adiante, sentia que seu poder era mais bem avaliado pelas vidas que tirava.

 




Tags:

31 de maio de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Minímos contos mínimos

               
              
            
                

Deixe um comentário