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5 de julho de 2018

Contos Mínimos # 911 a 920

911.

Até seu carro se chocar contra a pilha de toras que caiu de repente do caminhão que ia à sua frente, fazendo com que seu crânio explodisse contra o para-brisa e enchesse o painel e os bancos do automóvel com uma mistura indigesta de sangue e pedaços de cérebro, Agnelo Armando de Souza só tinha pensado no quanto seu salário iria aumentar com a promoção que ganhou hoje pela manhã.

912.

O coelho meteu a mão na cartola e tirou de lá um mágico. Gritos entusiasmados se ouviram na plateia. Muitos aplaudiram a façanha, outros só mexeram as orelhas.

913.

Tentei, e como!, alcançar o amor da minha vida. Não consegui. Como corria aquela danada!

914.

Não penso em mais nada quando janto num restaurante japonês. Entro em pleno êxtase. Cinco tipos de algas, seis espécies de cogumelos, molhos variados, peixes a escolher, raiz forte, nada me chama mais a atenção do que o leque de sabores inundando minha boca. É como lamber partes distintas de um corpo: temperaturas variadas, distintos gostos, texturas e cores, líquidos suculentos — uma festa para os sentidos, hummm! Mordo a pontinha disso, que não sei o que é, mas eu gosto; chupo meu dedo embebido de molho agridoce; dou uma lambida naquele pedaço de peixe cru, cujo nome eu também não sei, mas o que importa um nome? E a sobremesa então? Essas bolinhas doces que explodem sobre a minha língua, enchendo minha boca de doçura, me tiram do chão. Fico cego. Talvez seja por isso que não liguei quando finalmente abri os olhos e o garçom me avisou que minha esposa tinha ido embora furiosa.

915.

Não há carícia mais perfeita que o leve toque de uma mão com oito dedos — afirma quem, em vez de escolher uma mulher (ou um homem), opta por entrar só e sem roupas no Quarto das Aranhas.

916.

A cigana vidente jogou as cartas na mesa e assegurou: “Você terá uma vida longa”. O cliente morreu no ano seguinte, aos 115 anos.

917.

Consegui finalmente uma velha garrafa vazia de vinho, um pedaço de papel enrugado, um pouco de tinta negra de polvo e uma pena de gaivota. Então escrevi minha história e meu desesperado pedido de socorro. Agora só preciso de um mar furioso e uma ilha deserta no meio do nada para completar meu naufrágio.

918.

— Ânimo, dê tempo ao tempo — é o que me dizem a toda hora. E eu deixo escorregar uma lágrima tão falsa como minha dor.

919.

O medo e a alegria se entregam à batalha. A alegria sangra sorrisos. O medo sua lágrimas.

920.

Ela tinha por mim um amor ecológico: me reutilizou, me reduziu e me reciclou.

 




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5 de julho de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Minímos contos mínimos

              
            
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