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2 de agosto de 2018

Contos Mínimos # 921 a 930

921.

Hoje de manhã surpreendi a mim mesmo assoviando pela rua. Alguém sabe dizer por que caralho eu estaria tão contente?

922.

Quero fazer algo esplêndido, notável. Algo heroico e maravilhoso, que não será esquecido depois que eu morrer. Acho que vou escrever um livro.

923.

Tem os olhos amendoados da mãe, o nariz grego do pai, o queixo aprumado da avó materna e as orelhas pequenas e delicadas de um primo com quem nunca teve muita afinidade. Ela guarda tudo numa gaveta da cômoda que fica na sala, porque gosta de ter as peças à mão. Assim, quando aparece uma visita inesperada, ela gosta de mostrar como tudo está bem conservado em formol e comprovar como as partes se parecem com as dela própria.

924.

Ele se empenhou tanto em ganhar as eleições que se esqueceu de que, uma vez eleito, era obrigado a governar.

925.

Cheguei mais cedo do trabalho e o encontrei preparando uma corda para se enforcar. Não se preocupe, disse, olhando fixamente em meus olhos, isso não é para mim. Foi a última coisa que me disse.

926.

Quando éramos jovens, praticávamos a inconsciência, e nos gabávamos disso. Promovíamos bebedeiras inconsequentes entre amigos, caminhadas sobre o parapeito de prédios e pontes, nadávamos à noite contra a corrente, fazíamos racha em rodovias cheias de curvas. A morte nos temia. Quando a víamos saindo da neblina, foice em riste, gargalhávamos. Dançávamos samba se a encontrássemos nalgum beco escuro ou no meio da multidão de um bloco de carnaval. Fazíamos piada e ríamos, ríamos. Ela baixava a cabeça e ia embora, arrastando a túnica esfarrapada na poeira do chão. Agora estamos arrependidos. Os anos se arrastam lentamente, intermináveis, e parece que a morte se esqueceu de nós.

927.

Sua vida inteira cabia agora num par de sacolas. Começou a caminhar.

928.

Chorava lágrimas de sangue, que vendia para o banco e comprava um sanduíche.

929.

Os pais de Aninha anunciaram a ela que um anjo tinha acabado de trazer um irmãozinho. Quer ver o Marcelinho agora?, perguntaram. Não, disse Aninha, quero ver o anjo.

930.

— Seu polícia, esse sujeito entrou aqui em casa à noite, foi até o banheiro e se matou.

— E ele se deu vinte e cinco facadas?

— E eu é que sei? Não o conheço, minha mulher também não. Não é, querida?

 




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2 de agosto de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Minímos contos mínimos

               
              
            
                

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