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20 de agosto de 2018

Contos Mínimos # 931 a 940

931.

Ninguém percebe quando, na rodoviária, largo o envelope pardo no lugar combinado. Disfarço e vou para um boteco tomar café. Sem açúcar, como de costume. Detesto café doce. Dou duas tragadas numa bituca que encontro no fundo do bolso do meu casaco de gabardine preta, golas levantadas como convém a um agente secreto da minha categoria. Enterro o chapéu na cabeça e olho para os lados. Que ninguém me reconheça, estou em missão altamente sigilosa. E perigosíssima! Espero vinte minutos. Volto ao local em que tinha deixado o envelope e o pego de volta. Abro e leio com atenção as instruções do meu superior imediato. Compreendo que tenho que ser eliminado. Olho ao redor e saio de fininho para cumprir a ordem.

932.

A polícia não conseguiu encontrar uma só pessoa que tivesse conhecido aquele ator na vida real. Nem uma, nunca. Ele só existia na tela da televisão.

933.

Quem é?, pergunta ela, espiando pelo olho mágico. O Júlio tá aí?, responde o homem do outro lado da porta. Não, aqui não mora nenhum Júlio. E foi para a cozinha terminar o jantar. No caminho, viu o Júlio sentado na sala, na frente da televisão. Ficou angustiada ao perceber o olhar de ódio dele, mas logo se tranquilizou. Como vai me olhar com ódio se está morto?, perguntou para si mesma.

934.

Aproxima-se em silêncio do balcão do bar. A noite está gelada e o frio caminha pelas veias dos braços e do pescoço. Pede uma dose dupla de uísque. Bebe de um trago só. Tira o casaco e está pronto para seu número diário: o do bêbado que, numa noite fria, entra no bar em silêncio, pede uma dose dupla de uísque e bebe de um trago só.

935.

Marcos das Neves, Mateus Linhares, Lucas Borges e João Apolinário eram os bandidos conhecidos como “os quatro evangelistas”. Assaltavam bancos, roubavam carros, explodiam caixas eletrônicos, saqueavam postos de gasolina. Quando finalizavam algum delito, diziam que aquele estabelecimento foi “evangelizado”. Achavam tudo tão divertido que até memorizaram algumas passagens bíblicas para recitá-las às vítimas durante os assaltos. Isso durou três ou quatro anos, até que foram presos. No julgamento foram condenados a penas muito leves, porque os advogados que os defenderam, a mando da igreja local, alegaram que, à parte os crimes cometidos, contribuíram para divulgar o evangelho no país.

936.

Quando o cabide se sente triste, sussurra palavras doces para os botões do casaco. Este, experiente na dor de invernos e abandonos, o rodeia com suas duas mangas para abraçá-lo.

937.

Aquela formiga odiava o leão. Demorou dez mil anos, mas conseguiu devorá-lo inteirinho, pouco a pouco, sem que ele se desse conta.

938.

E então disse o Presidente das Nações Unidas: Aquele que se sentir livre de culpas, que lance a primeira bomba.

939.

Hoje o Lucas me telefonou. Tremi quando reconheci a voz: ele quase nunca me liga, a não ser para me informar sobre a morte de algum amigo do tempo do ginásio. Começou com os cumprimentos de praxe e em seguida pronunciou o nome de mais um que tinha partido. Esta vez foi o meu.

940.

Comprei uma casa fabulosa com vista para o mar, realizando antigo sonho. Pouco tempo depois, entre minha casa e a praia, construíram outra casa fabulosa com vista para o meu mar. Não pude mais ver os barcos deslizando no horizonte, mas podia escutar o barulho das ondas sobre os rochedos. Meses depois, entre as duas casas e o mar, uma empresa levantou um edifício com vista para o nosso mar e, por causa disso, deixei de ouvir o som das ondas, mas ainda conseguia sentir a brisa marinha todas as manhãs, trazendo o cheiro das algas, do sal e dos caracóis. Agora, entre minha casa e o mar, há uma cidade inteira. Não percebo mais o cheiro nem o barulho das ondas, mas — dizem os que vivem perto da água — o mar continua ali.

 




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