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27 de agosto de 2018

Contos Mínimos # 941 a 950

941.

Aos sete anos descobriu o terror quando estrangulou o coelhinho. Viu os olhos do bichinho e ficou encantada. Começou a fazer uma coleção macabra: rabinhos de rato e lagartixa, patas de gato, orelhas de cachorro, asas de borboletas. Construiu colares com os dentes que conseguia arrancar de qualquer bicho. Empolgou-se como gente grande, apesar da pouca idade. Quando a professora perguntou o que queria ser quando crescesse, ela respondeu sem pensar muito: “Assassina”.

942.

Pra poder comer, fingia que tinha lombriga e punha a mão na barriga. Daí pegava a mão do amigo e colocava no lugar da sua: Tá vendo como ela se mexe?, o olho vidrado no pão com ovo do colega. Depois do lanche, a lombriga tirando soneca, corria chutar bola. Fazia fintas como ninguém, apesar das pernas tortas. Cresceu e virou profissional. Ganhou dinheiro e esqueceu por algum tempo a miséria de onde tinha vindo. Fez o país inteiro se alegrar. Adulto e famoso, foi incapaz de driblar o tabaco e o álcool. Não foi verdadeiramente feliz, nunca. Tinha no peito, em carne viva, a peleja do bem contra o mal; no fim, ninguém ganhava e só ele perdia. Morreu jovem, pobre e bêbado, abandonando filhos, mulheres e boletos sem pagamento. Uma multidão fervorosa acompanhou seu caixão até o cemitério. Sua tumba, hoje, só recebe a visita do esquecimento.

943.

Durante os vinte anos de seu mandato não repetiu comida nenhuma vez: deliciava-se com manjares vindos das montanhas, frutas frescas do litoral, legumes e verduras das terras mais distantes, cereais produzidos milagrosamente em solos rachados de secura. Uma novidade a cada refeição. Vinte anos ditatoriais com milhares de cafés da manhã, almoços e jantares cercados de festas, celebrações e gente inculta. O sangue dos cidadãos e escravos corria solto entre copos, taças e toalhas de linho branco. Ele amava o povo e apreciava muitíssimo o sabor de seu medo.

944.

A mulher de luto recebe as sentidas condolências dos amigos e parentes do marido. Não se importa com as lágrimas que borram a maquiagem que fez com tanto esmero, hoje pela manhã. Permanece sentada na poltrona ao lado do caixão. Espera que todos deixem o local e então se levanta, seca as lágrimas, refaz o contorno dos olhos e o blush, pinta novamente os lábios e, antes de ir embora, se inclina sobre o defunto pela última vez. Uma mão lhe acaricia a nuca, num gesto de muita, muita compreensão.

945.

Quando eu era criança, os adultos costumavam contar a história de um homem que tinha sobrevivido a um naufrário flutuando durante uma semana sobre uma porta de madeira. Nunca conheci esse fulano, mas lembro-me de matutar muito sobre o caso. Imaginava a cena: uma pessoa sozinha, no meio da água infinita, preso a uma porta que ele não podia abrir para escapar.

946.

Ele veio do sul para iluminar a escuridão. Tu serás o nosso sol de hoje em diante, disseram. Aceitou a honraria e desde então se queima como lenha madura. Nem tudo foi glória, porém. Do norte vieram os carrancudos e lhe arrebataram o dia. Não importa, tu serás a lua, combinaram todos. Agora os coiotes perambulam pela cidade e uivam quando o veem. O dia e a noite foram inaugurados e os pés humanos pisaram a terra pela primeira vez. A estes, cresceram cabelos na cabeça e calos nas mãos. Depois vieram o sangue e a culpa, e logo o indestrutível silêncio iniciou seu pranto sem consolo. Por sorte, a percepção do mundo mudou assim que chegou a nova versão do IPod com 600 GB de memória e conexão integrada que nunca, nunca cai.

947.

Sempre evitou incursionar pela política. Não fossem seus rígidos princípios morais, teria fatalmente terminado no Salão Oval da Casa Branca, com o botão vermelho ao alcance da mão, pronto para destruir o planeta no primeiro turno. Decidiu também não habitar casa alguma e manter-se distante de lugares públicos; pensava que assim evitaria acidentes químicos ou piquetes mutantes que poderiam transformá-lo num monstro capaz de destruir cidades inteiras. Tampouco se permitiu fazer amigos que pudessem ser ludibriados por sua lábia maléfica e acabassem criando uma seita de adoração a ele, levando ao extermínio toda a espécie humana, qual um Jim Jones em escala interplanetária. Por esses motivos, viveu assim, sem teto e sem amigos, sem afeto, molambento, com o único propósito de salvar o mundo de si mesmo.

948.

A cada quarenta ou cinquenta anos nasce, no país dos caolhos, uma criança com os dois olhos sãos. Costuma ser objeto de ódio dos demais. Sofre por isso. Mas nunca falta a alma caridosa que, num dia qualquer, lhe arranque um olho. Ou os dois.

949.

Quando terminou a aula de leitura, um dos alunos se aproximou da professora e pediu emprestado o livro que tinham lido na classe. É que quero me aprofundar na matéria que aprendemos hoje. Eu devolvo na semana que vem. E foi com pressa para uma mesa da biblioteca. Ali sentou-se numa mesa isolada, no canto, para ter mais privacidade e concentração. Pegou caneta e um cartão perfumado, abriu o livro na página 18 e começou a tomar notas no cartão: Olá, querida Helena, ontem à noite inventei essa poesia pra você: Me gusta quando callas porque estás como ausente / y me oyes desde lejos e mi voz no te toca…” [Trecho do “Poema 15”, de Pablo Neruda (1904-1973), prêmio Nobel de Literatura em 1971].

950.

Se o que brilha intensamente nesta manhã é o sol e não uma ilusão de ótica, se são nove horas em ponto e não cinco da madrugada, se hoje é vinte e sete de agosto e não dezoito de abril, se o capitão não saiu da cama num mal dia e o que ele acabou de ordenar não é outra coisa senão Fogo!, se os soldados que me apontam o fuzil não se esqueceram de carregar as armas, se estamos na realidade e não num pesadelo, se tudo é como parece, estas virão a ser minhas últimas palavras.

 




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