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17 de setembro de 2018

Contos Mínimos # 951 a 960

951.

Depois da primeira onda chegaram os conquistadores; após a segunda, os colonizadores; finda a terceira, os evangelizadores. Passada a quarta onda não chegou ninguém: já tinham tirado tudo de nós.

952.

Secou as lágrimas que tinha chorado pela morte dele. Tirou-o do caixão e sacudiu a naftalina. Jogou as flores fora. Pegou sua mão e o levou de volta aos últimos trinta anos de rotina e tédio. Devolveu as frases ríspidas e humilhantes que ouviu a vida inteira. Apequenou os três filhos até conseguir metê-los de novo no útero, num parto ao revés. Fez desaparecer das paredes e dos cômodos tudo o que fazia crer que ali existia um lar. Limpou as cicatrizes das surras que levou, apagou as noites de insônia esperando-o chegar da farra. Assim, mais leve, com a mão dele bem apertada na sua, arrastou-o até a igreja, convidou os amigos e familiares e, diante da pergunta, respondeu com voz firme: Não!

953.

Acabo de falar com um amigo que está vivendo em Estocolmo. Ele me disse que não para de nevar há três dias e que o vento norte atinge velocidade de quase 200 quilômetros por hora. A esposa, diz ele, passa o dia com o rosto colado na janela da cozinha. Se não parar de nevar, ele acha que não haverá outro remédio a não ser abrir a porta e deixá-la entrar…

954.

Robinson sai do mar e corre até a praia. Descansa um pouco e pensa: Se as ondas tivessem jogado na areia um pequeno barril de pólvora, ainda que estivesse ensopada, e também uma navalha, uns poucos pregos e umas peças de madeira, eu poderia escrever um romance ou uma novela. Não posso fazer nada com estes parágrafos molhados, com estas metáforas cobertas por algas e mexilhões, com estes restos de outro triste naufrágio literário.

955.

Aproxima-se do balcão do bar, pega dois ou três guardanapos e esfrega os lábios com força. Acaba de brigar com o noivo e não quer nenhum rastro dos beijos dele na boca. Assusta-se quando olha o papel e vê pedaços de língua e alguns dentes. É isso o que a paixão tem de pior: despedaça as pessoas sem que elas percebam.

956.

Com o último golpe de machado, a árvore cai com estrondo. Os pássaros, entretanto, permanecem imóveis onde antes estavam os galhos. Talvez porque só sejam a sombra daqueles pássaros. Talvez porque a distância, com seu hipnotismo, costuma paralisar os pássaros. Ou talvez porque a memória da árvore sempre morre depois.

957.

Num canto perdido da biblioteca havia um livro, e dentro do livro um bosque, e no bosque uma menina descalça que juntava folhas secas em forma de poemas enrugados e as comia, rindo e dançando como uma borboleta. Seu riso exalava palavras bonitas que saíam das páginas e voavam entre as estantes e prateleiras como insetos barulhentos, fazendo farra e festa com os romances, contos e poesias, para, finalmente, se derramar sobre a cabeça do escritor que, sentado perto da janela, suspirava por uma fagulha de inspiração.

958.

Sai uma luz de onde estamos, e a sala em torno de nós fica com um tom azulado, que oscila. Jonas, de frente, nos olha com olhos cansados. Não olha exatamente para nós, mas para a tela. Às vezes muda de canal, outras permanece um tempo enorme sem mexer um só músculo. Nenhum programa parece chamar muito sua atenção, embora não faça nenhum esforço para apagar a luz azul e procurar outros afazeres. Nós gostamos de Jonas. Gostamos de ver como ele se contorce no sofá, procurando a posição mais confortável. Vemos que tem a boca seca. Ele gostaria de tomar uma cerveja, mas dá muito trabalho ir até a cozinha. Nós também não gostaríamos que ele saísse dali. Arrota, se coça, solta gases, boceja. Ele não sabe que estamos de olho nele.

959.

— Não concordo, senhor Hemingway — disse o pescador, enquanto sustentava com força o enorme peixe-espada ao lado do barco. Ele era gigante, magnífico, lutamos muito um contra o outro, e eu ganhei. Por que os tubarões vão manchar de sangue a minha vitória?

— Sei o que estou fazendo, velho — retrucou Hemingway. Esse é o único final possível, você sabe…

960.

Que eu falo, sim, e não tenho tempo pra mimimi. Na qualidade de cão, cachorro mesmo, não dou mole de mijar em tronco de árvore ou poste de luz. Comigo não, tenho outra categoria. Também nada de parede de prédio ou muro de terreno abandonado. Se tenho que marcar meu território, impor minha presença, que futuro tenho eu mijando no meu bairro e nas vizinhanças? Eu pergunto: quantos bairros uma mijada de cachorro pode alcançar? Poucos, pouquíssimos. Quero ir mais além, meu negócio é roda de carro, e não pode ser qualquer carro. Não vou mijar na roda de um Fusquinha 68 ou na de um Fiat 147, que o dono desses não tem dinheiro pra encher o tanque e andar pela cidade; eles não saem das redondezas e isso não me interessa. Eu quero é carrão, de preferência importado. Distingo perfeitamente o modelo e o ano, e é dessa maneira que alargo meu território. Adoro os esportivos, coloridos, que vão até muito longe. É pra lá que o meu mijo vai. Quando encontro um desses, aí é que eu mijo com vontade. Pra impor respeito e mostrar quem é que manda no pedaço.

 




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17 de setembro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Minímos contos mínimos

               
              
            
                

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